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Jogando a vaca no barranco

In Crônicas on January 19, 2009 at 2:02 am

Jehozadak Pereira

Outro dia ouvi uma história deliciosa, da qual tirei muitas lições. Creio tê-la ouvido do reverendo Naamã Mendes. Um velho sábio e seu ajudante chegaram numa pequena fazenda onde moravam um homem e seu filho, e pediram para passar a noite ali. A miséria e a desolação do lugar era total e eles dependiam totalmente do leite que tiravam de uma vaca amarrada à beira da janela.

O mato tomava conta de tudo à volta deles e aliado à sujeira dava ao lugar um aspecto sombrio e desalentador. Conversando com os dois homens, o velho sábio viu-os conformados com a situação de miséria e penúria em que estavam.

Ao sair da casa de madrugada, o sábio puxou a vaca pela corda e a empurrou no primeiro barranco que encontrou, para espanto total do seu ajudante.

Um ano depois os dois voltaram e para surpresa do ajudante do sábio, o lugar estava totalmente modificado. Onde havia miséria, havia agora sinais de fartura e abastança. Pai e filho, ao contrário dos andrajos de um ano atrás, vestiam roupas boas e novas. Na garagem havia carros e no celeiro ao lado caminhões e tratores.

O que havia acontecido, perguntou o sábio? Alguém, que eles não sabiam quem era, havia empurrado a vaca deles no barranco, e sem outra alternativa eles viram que tinham de trabalhar arduamente. E foi o que fizeram. E trabalhando, a vida deles se modificou radicalmente.

Quantas vezes precisamos tomar umas sacudidas da vida ou de alguém que empurre barranco abaixo a nossa vaquinha. Muitos de nós ao virmos para a América nos esquecemos da dignidade e das coisas que tínhamos no Brasil. Moramos mal, dirigimos carros velhos, não nos alimentamos adequadamente, e com isto vamos nos degradando a cada dia que passa.

Moramos mal, porque nos sujeitamos a qualquer espelunca, às vezes em porões úmidos e mofados, e outras vezes convivendo com baratas e ratos, e o pior – quem nos aluga isto acha que está nos fazendo um favor imenso.

E os carros que andamos? Muitos pensam que se comprarem um “carro baratinho” vão economizar no seguro, e gastam muitas vezes mais em manutenção e no mecânico. Outras vezes convivemos com gente que só pensa em mediocridade e acabamos contaminados por isso, e quando nos damos conta, estamos como aquele pai e filho – agradecendo pela miséria e desconforto, achando que somos de fato coitados.

Muitos de nós deixaríamos chocados e pasmados nossos parentes e amigos que ficaram no Brasil, se os deixássemos ver onde moramos, o que comemos, do modo com que nos vestimos, e olha que nem estou falando de trabalho.

Sofremos e padecemos, às vezes por medo de tentar o novo, o diferente, o que não conhecemos. Mas, quantas histórias são escritas a partir de tragédias e infortúnios? Somente porque nos apegamos a chorar e a lamentar, sem nos dar conta de que a vida têm muito a nos oferecer.

Outro dia estava num restaurante e na hora de se servir no buffet, ouvi um conterrâneo dizendo que estava doente porque na casa onde mora, havia goteiras em profusão, além do aquecimento central ter sido desligado pelo dono por economia. E pagava caro por isso.

Fiquei pensando ou tentando imaginar os motivos dele para aceitar tais situações. Será que era por economia? Será que era por causa dos amigos que moram com ele ou por qualquer outra razão?

E aqueles que choram por causa dos parentes e amigos que ficaram no Brasil? Não há nenhum problema em chorar de saudade, o problema é fazer disto um muro de lamentações.

Muitas vezes Deus permite que passemos por situações para que cresçamos e desenvolvamos moral, mental e espiritual.  Desejo que você, no início de ano, jogue a sua vaquinha no barranco, antes que alguém o faça para você.

Pois às vezes nos apegamos a certas situações que nos impedem de crescer tal como a história do pai e filho do início deste artigo. Eu tomei uma decisão – vou jogar a minha vaca barranco abaixo. Espero que você faça o mesmo…

América, América…

In Cotidiano on December 5, 2008 at 5:08 am

Jehozadak Pereira

A vida na América é de fato muito boa. Boa mesmo. Uma maravilha diriam alguns, tamanha são as facilidades que encontramos no dia-a-dia que nos proporcionam uma vida melhor e mais comoda. Só que isto as vezes nos torna um tanto quanto acomodados e meio indolentes. Mas, quem quer abrir mão de tantas coisas boas?

Drive thru

Coisa boa é o tal do drive thru. A gente nem precisa sair do carro para fazer o pedido. Até em farmácia tem, é só pedir e pagar. As vezes nos enroscasmos com algum haitiano ou indiano que não entende o que a gente fala. Mas, não tem problemas. Nós também não compreendemos o que eles falam…

Controle remoto

Tem para todos os gostos. Dá para ligar o carro lá de longe, e no inverno é uma beleza, ligamos e quando entramos no carro está tudo aquecido. Tem também o da televisão, do DVD, das luzes do jardim, do ar condicionado e cada um mais moderno que o outro. Tem uns que só faltam falar, e pelo jeito como vão as coisas, não demora não…

Delivery

Meia noite, e a fome é imensa. O que fazer? Fácil. Extremamente fácil como diria a música do Jota Quest, pega o telefone e liga para a Dominos Pizza ou mesmo para o chinês ali na esquina e daí alguns minutos a campainha vai tocar e o problema da fome já era. Nos horários normais e convencionais têm delivery para tudo. Flor, cestas diversas, lanche, da lavanderia; são tantos que nem dá para contar, ou como diria o Garfield, falta mesmo um delivery de lazanha…

Coin Laundry

Quer coisa mais americana do que lavar roupa pagando com moedas? O engraçado é ver aqui dos nossos que jamais pensaram em lavar roupa, encarando sozinhos uma montanha de roupa a cada semana, pois se não fizer assim não terão o que vestir no dia seguinte, e o que é pior sem poder gritar pela mãe. Alguém falou em passar a roupa? Bem, passar roupa é outra história. E não é que tem gente que não passa roupa nem por decreto presidencial. E sabem qual é a desculpa? Passar para que? Aqui é a sociedade dos amarrotados…

Manda pelo Correio

Quer instituição mais americana do que pagar as contas pelo correio? É só ver a cada domingo carros e mais carros parando próximos às caixas de correio e as pessoas colocando lá dentro os seus envelopes com os respectivos cheques e contas. E não é que a coisa funciona mesmo?

Iced Coffee

Argh! Café gelado? Nem morto! Muita gente torce o nariz e revira o estômago só de pensar no tal do café gelado. Até que um dia alguém que já abominou um dia café com gelo, insiste e pronto! O primeiro gole desce meio que atravessado, e não é que o negócio é bom mesmo? Bom e calórico até a última gota…

Stickers

Tem sticker para tudo. Para a o ano da placa e também para o mês. Tem também da inspeção anual, e ai de nós se passar um dia do prazo, ou se por qualquer problema em vez do mês vier um “R” que parece que o policial vê a módicas duas milhas de distância, e tome multa. Tem sticker até para estacionar a noite na rua em frente a casa. Quando esquecemos de renovar os stickers das placas, vamos nos lembrar do prejuízo por um bom tempo. E não adianta reclamar. Tem gente que acha que este negócio de sticker é uma comilança de dinheiro. É mesmo…

Ovo no microwave

Esta eu ouvi de um amigo que resolveu me contar para azarar a mãe dele. A mulher frita ovo no microwave. Como? Uma vasilha com água, sal – não esqueça o ovo – aperta o start e dois minutos depois, lá está o ovo frito; fritinho da silva, pronto para ser devorado, sem cheiro de gordura, sem fogão sujo sem nada. Coisa de gente inteligente e apressada, mas funcional que é uma beleza. E não é que delicioso. Como eu sei? Eu fiz e vou fazer de novo…

Coisas da América…

Todos os direitos reservados ao autor – dezembro/2008

Os descompensados

In Comportamento on June 24, 2008 at 1:55 am

Jehozadak Pereira

Escrevi este artigo um tempo atrás, e lembrei dele pois recentemente convivi com uma pessoa descompensada que me fez passar raiva. Mas a vida é assim mesmo. Cada uma destas pessoas existe e por respeito a eles, não vou citar o seu nome aqui, mas os sintomas são os mesmos. Sem tirar nem por.

Juliano Cruz já foi de tudo na vida. Feirante, vendedor, mágico, despachante, mecânico, cozinheiro, seminarista, garçom, motorista e propagandista. Foi dono de uma pastelaria, de uma agência de viagens, de boutique num shopping em Curitiba, de uma pousada em Caldas Novas e outra em Porto Seguro, até que faliu o hotel da família em Florianópolis e decidiu vir para os Estados Unidos.

Juliano é daquelas pessoas que tem boas idéias e excelentes iniciativas, mas que se perdem em pouco tempo e poem tudo a perder, fazendo o que se espera que eles façam de fato. Juliano é uma das milhões de pessoas que são atingidas pela incapacidade de o organismo restabelecer o equilíbrio físico ou mental alterado por um problema estrutural ou funcional – definição patológica. Por isso não conseguem se concentrar em absolutamente nada.

Juliano sempre arruma um problema com quem está próximo dele, a ponto de nem seus irmãos o suportarem. Quando veio para a América em 1998, foi trabalhar numa uma igreja evangélica, e logo o ambiente que era perfeito, deteriorou-se de tal maneira que a direção da igreja o dispensou com a recomendação que jamais tornasse a pisar naquele lugar novamanente.

Tal como Juliano, são pessoas que se intrometem nas vidas alheias, escutam conversas, dão palpites fora de hora, acham que as suas idéias são sempre brilhantes, querem impor a sua vontade sempre, e quando contrariados acham-se perseguidos por tudo e por todos.

Quando se sentem ultrajados partem para outra sem a menor cerimônia, sem se importar com investimentos de tempo e de dinheiro. A exemplo de Juliano que deixou na mão alguns sócios, sem ao menos se dignar a dar qualquer tipo de justificativa ou satisfação.

Os descompensados são ressentidos e dizem que fracassaram porque o mundo conspirou contra eles. Geralmente a origem dos seus problemas está na infância ou na adolescência. Juliano, por exemplo, era chamado de desastrado e trapalhão pelos seus pais e irmãos, daí a sua insegurança e hesitação constante.

As vezes o descompensado pode ser briguento e hostil com quem os cerca. Cristiana Silva, é um exemplo disto. Em quatro anos de América já morou em tantos lugares que nem se lembra deles todos. Já teve muitas amigas e namorados e rompeu com todos eles a ponto de ninguém querer saber dela quando se acidentou em 2005 e ficou quatro meses internada.

Uma cena comum na sua vida nos Estados Unidos é dormir no carro com todas as suas coisas, por ter brigado novamente. A última foi há um tempo atrás, quando chegou em casa e as duas pessoas com quem ela dividia uma casa estavam rindo e ela perguntou o motivo. Não era nada de importante disseram as duas. Foi o suficiente para que ela se revoltasse a partisse para cima de uma delas, achando que era dela que elas riam.

Foram parar na polícia e como conseqüência ela foi posta para fora da casa no meio da noite, foram noites dormindo no carro até que ela arrumasse uma outra casa para morar.

Quem convive com um descompensado fica perplexo diante de cada nova trapalhada ou atitude incoveniente feita mais uma vez. As vezes busca alguma resposta e se pergunta se o problema é seu ou se fez alguma coisa que justificasse o ato do descompensado.

Raramente o descompensado se dá conta das suas atitudes e por causa disto não buscam ajuda clínica ou terapêutica, mesmo porque acham que não precisam, e que o mundo mais uma vez está contra eles.

Há algum tempo, a atriz Cassia Kiss, esteve no programa Mais Você da apresentadora Ana Maria Braga e contou o drama que a afligiu por muitos anos. Ela sofria de transtorno bipolar, que hoje é controlada com remédio e terapia recomendada pelo seu psicanalista e psiquiatra. Cassia lamentou o tempo perdido em que desconhecia o seu problema, e que hoje é uma outra mulher em todos os aspectos.  

911 – Os filhos da América

In Comportamento on April 1, 2008 at 2:49 am

Jehozadak Pereira

A América é a terra e pátria dos ditos direitos humanos, tudo é permitido em nome das liberdades civis, desde declarar abertamente a opção sexual, que eles fazem questão absoluta de que isto fique patente e evidente, sendo possível ver nos carros adesivos com o arco-íris estilizado em vidros e pára-choques, sem contar os lugares onde a freqüência é de homossexuais – masculinos ou femininos – igualmente identificados pela bandeira multicolorida. Tempos atrás em passeatas, os homossexuais saíram com seus respectivos pares, para a indiferença da população americana.

Por vezes é possível encontrar pelas ruas, portas de escolas, metrô e ônibus com criaturas andróginas no modo de falar, de vestir, alguns com tantos piercings, brincos e alfinetes que as feições ficam disformes. E os cabelos? Pink, blue, green, entre outras tantas matizes. As idades? É possível identificar entre tantos alguns com onze, doze anos. E como fumam e bebem álcool! Diga-se que em muitos estados americanos tanto o fumo como a bebida alcoólica é proibida. Mas nunca os jovens e adolescentes americanos beberam e fumaram tanto como neste dias. Uma das filhas de George W. Bush, o presidente americano, foi multada pela polícia do Estado do Texas, por tentar comprar bebida alcoólica usando a identidade de uma amiga.

Em muitas escolas, é possível ver carros destruídos com os respectivos nomes dos adolescentes mortos em acidentes por causa da ingestão de álcool.

Outro dia, na cidade em que moro, um fato me chamou a atenção. Um garoto, talvez com catorze, quinze anos, estava fortemente escoltado por policiais armados, que conduziam o menino algemado nas mãos e pés, com as correntes passando pela cintura. Fiquei pensando qual foi o crime que aquele garoto cometeu? Conversando com algumas pessoas, inclusive americanos, fui informado que para que o garoto estivesse algemado daquele modo, o crime cometido foi muito grave, provavelmente assassinato ou tentativa, e se ele estava acorrentado daquele jeito, é porque o seu comportamento é agressivo e violento, além de perigoso. Certamente o menino ainda imberbe, se tiver cometido algo escabroso vai pagar a sua dívida com a sociedade até o último dia da sua pena.

É a lei.

A cada dia na América, mais jovens e adolescentes se envolvem em delitos, que vão desde dirigir sem a driver license – a carteira de motorista, tráfico de droga, porte ilegal de armas, violência – inclusive sexual, roubo, e assassinato entre outros tantos crimes. As estatísticas apontam que a cada ano a quantidade de crimes e contravenções praticadas por jovens e adolescentes é maior em relação ao no anterior.

Nas escolas as crianças são ensinadas a denunciar as autoridades eventuais maus tratos praticados por pais, mães, irmãos, parentes. Qualquer correção que deixe marcas é denunciada incontinenti. Tempos atrás eu conversava com um pastor de uma grande igreja, que me contou um caso muito interessante ocorrido com ele e sua filha. A menina, na época com doze/treze anos fez lá uma peraltice qualquer e o pai disse que ia corrigi-la. Qual não foi a sua surpresa ao ouvir da garota, que se ele atrevesse a toca-la ela ia ligar para o 911, para denunciá-lo às autoridades policiais. Não é preciso dizer que a reação do pai, foi à altura da insolência da menina, e ela foi devidamente corrigida e disciplinada. Onde ela aprendeu que devia denunciar a correção como violência doméstica?

Na escola.

Conheci um pai, que ao se separar da esposa, precisou corrigir fisicamente o filho de onze anos. No dia seguinte o menino comunicou a assistente social da escola que comunicou o fato ao departamento de polícia, que levou o pai à corte, e como conseqüência disto ele recebeu uma probation – restrição imposta pelo juiz, que no caso dele tinha de ficar por seis meses afastado do filho, não podia aproximar-se do menino por uma distância não inferior a 500 metros, e sequer podia telefonar ao filho. Onde ele aprendeu que tinha de denunciar o pai?

Na escola.

A grande e crucial questão é que os Estados Unidos, tem negligenciado a educação e correção dos seus filhos, e o que vemos são cenas chocantes, como a de Nathaniel Brazill, o adolescente de 14 anos que em 2000 assassinou seu professor de inglês com um tiro no rosto, na Flórida, e foi condenado a 28 anos de prisão. Quando deixar a prisão, aos 42 anos, Brazill – ainda terá de passar dois anos em prisão domiciliar e mais cinco em liberdade condicional. Neste período, terá de fazer cursos de “reinserção na sociedade”.

Brazill foi julgado como adulto. Em maio, o adolescente, que tinha 13 anos quando cometeu o crime, foi declarado culpado por homicídio em segundo grau (não premeditado).

Se o crime fosse de primeiro grau – premeditado, ele seria condenado possivelmente à prisão perpétua, ou ainda a tragédia na Columbine School, onde dois ensandecidos adolescentes mataram também a tiros treze pessoas, e por fim colocaram fim nas suas vidas. Poderia citar dezenas de casos de adolescentes americanos que cometeram assassinatos por motivos fúteis, ou sem uma motivação aparente, se bem que nenhum crime de morte é justificável.

Ao deixar para as autoridades a tarefa de educar seus filhos, o que vemos é uma sociedade exasperada e sem a devida paciência com a delinqüência, que não hesita em corrigir aplicando a força fria da lei. Que os digam os reformatórios juvenis e as penitenciárias cada vez mais lotadas. Num dos estados do sul dos Estados Unidos, um pastor foi preso por cerca de dezoito vezes. O seu crime? Pregar no seu púlpito que filhos devem ser corrigidos por seus pais, que os pais devem utilizar os preceitos bíblicos na correção dos seus filhos. O velho pastor foi denunciado por incitação a violência e a cada vez que é recolhido a penitenciaria estadual, faz questão de afirmar aos juizes que o condenam que mais importa obedecer aos preceitos bíblicos, e na última vez narrou um episódio que emocionou a todos.

Ele narrou a vida  de um assassino confesso condenado à morte, que em lágrimas, contou a sua triste história. O jovem com pouco mais de vinte anos, afirmou que seus pais negligenciaram o princípio bíblico, e a cada ameaça de correção ele discava o 911, o resultado estava ali diante dele – um condenado à morte. Por isso o velho pastor insistia em pregar a palavra. 

Logicamente que há as exceções, existem pais que educam seus filhos de modo adequado e segundo os padrões bíblicos, mas parte considerável de gerações tem-se perdido por causa da severidade das leis de proteção aos jovens e adolescentes.

O quadro atual é o de uma geração que se assoma sem a devida atenção de pais e mães, que está à mercê das autoridades, que somente aplicarão o preceito legal. O resultado é que temos visto, atrevimento, insolência, falta de regras e de educação, ausência de preceitos hierárquicos, uma geração sem limites que não respeita absolutamente nada.

Esta é uma geração que tem sido criada sob os auspícios do famoso 911, que não hesita em punir quem corrige os seus filhos, a pretexto de os proteger. Mas é este mesmo 911 que será chamado para corrigir os delinqüentes de hoje que ontem protegeu. Uma sociedade permissiva e indulgente que já começa a se questionar sobre tanta liberalidade na educação dos seus filhos.

É o preço que a América tem pago. Um preço caro. Muito caro. Será que vale a pena?

Todos os direitos reservados ao autor – copyright©2001

Jogando a vaca no barranco

In Cotidiano on February 19, 2008 at 5:31 am

Jehozadak Pereira

Outro dia ouvi uma história deliciosa, da qual tirei muitas lições. Creio tê-la ouvido do reverendo Naamã Mendes. Um velho sábio e seu ajudante chegaram numa pequena fazenda onde moravam um homem e seu filho, e pediram para passar a noite ali. A miséria e a desolação do lugar era total e eles dependiam totalmente do leite que tiravam de uma vaca amarrada à beira da janela.

O mato tomava conta de tudo à volta deles e aliado à sujeira dava ao lugar um aspecto sombrio e desalentador. Conversando com os dois homens, o velho sábio viu-os conformados com a situação de miséria e penúria em que estavam.

Ao sair da casa de madrugada, o sábio puxou a vaca pela corda e a empurrou no primeiro barranco que encontrou, para espanto total do seu ajudante.

Um ano depois os dois voltaram e para surpresa do ajudante do sábio, o lugar estava totalmente modificado. Onde havia miséria, havia agora sinais de fartura e abastança. Pai e filho, ao contrário dos andrajos de um ano atrás, vestiam roupas boas e novas. Na garagem havia carros e no celeiro ao lado caminhões e tratores.

O que havia acontecido, perguntou o sábio? Alguém, que eles não sabiam quem era, havia empurrado a vaca deles no barranco, e sem outra alternativa eles viram que tinham de trabalhar arduamente. E foi o que fizeram. E trabalhando, a vida deles se modificou radicalmente.

Quantas vezes precisamos tomar umas sacudidas da vida ou de alguém que empurre barranco abaixo a nossa vaquinha. Muitos de nós ao virmos para a América nos esquecemos da dignidade e das coisas que tínhamos no Brasil. Moramos mal, dirigimos carros velhos, não nos alimentamos adequadamente, e com isto vamos nos degradando a cada dia que passa.

Moramos mal, porque nos sujeitamos a qualquer espelunca, às vezes em porões úmidos e mofados, e outras vezes convivendo com baratas e ratos, e o pior – quem nos aluga isto acha que está nos fazendo um favor imenso.

E os carros que andamos? Muitos pensam que se comprarem um “carro baratinho” vão economizar no seguro, e gastam muitas vezes mais em manutenção e no mecânico. Outras vezes convivemos com gente que só pensa em mediocridade e acabamos contaminados por isso, e quando nos damos conta, estamos como aquele pai e filho – agradecendo pela miséria e desconforto, achando que somos de fato coitados.

Muitos de nós deixaríamos chocados e pasmados nossos parentes e amigos que ficaram no Brasil, se os deixássemos ver onde moramos, o que comemos, do modo com que nos vestimos, e olha que nem estou falando de trabalho.

Sofremos e padecemos, às vezes por medo de tentar o novo, o diferente, o que não conhecemos. Mas, quantas histórias são escritas a partir de tragédias e infortúnios? Somente porque nos apegamos a chorar e a lamentar, sem nos dar conta de que a vida têm muito a nos oferecer.

Outro dia estava num restaurante e na hora de se servir no buffet, ouvi um conterrâneo dizendo que estava doente porque na casa onde mora, havia goteiras em profusão, além do aquecimento central ter sido desligado pelo dono por economia. E pagava caro por isso.

Fiquei pensando ou tentando imaginar os motivos dele para aceitar tais situações. Será que era por economia? Será que era por causa dos amigos que moram com ele ou por qualquer outra razão?

E aqueles que choram por causa dos parentes e amigos que ficaram no Brasil? Não há nenhum problema em chorar de saudade, o problema é fazer disto um muro de lamentações.

Muitas vezes Deus permite que passemos por situações para que cresçamos e desenvolvamos moral, mental e espiritual.  Desejo que você, no início de ano, jogue a sua vaquinha no barranco, antes que alguém o faça para você.

Pois às vezes nos apegamos a certas situações que nos impedem de crescer tal como a história do pai e filho do início deste artigo. Eu tomei uma decisão – vou jogar a minha vaca barranco abaixo. Espero que você faça o mesmo…

TV Globo e o imigrante. Nada a ver

In Opinião on February 7, 2008 at 9:45 pm

Jehozadak Pereira

O Jornal Nacional veiculou na segunda-feira, 28 uma matéria sobre brasileiros que estão abandonando tudo e voltando para a casa. Até aí não há novidade nenhuma, pois todos os dias tem-se notícia de que milhares de brasileiros estão voltando para o Brasil levando na bagagem um pouco do que amealharam no período em que viveram na América, além dos sonhos e frustrações por não terem conseguido alcançar aquilo que desejavam plenamente.

Só que gente voltando para casa nunca foi novidade para a comunidade brasileira nos Estados Unidos. Então qual é a diferença desta vez? É que nunca os meios de comunicação deram tanto ênfase e cobertura para o assunto. Ou talvez, nunca tantos tenham voltado ao mesmo tempo.

Mas há sim, os exageros de sempre. E a matéria é pródiga em exageros, pois ao se editar os textos, carregou-se nas tintas pessimistas, teimando em dizer que todos estão indo embora. Todos não. Alguns é possível que sim. Há também um fator que não é levado em consideração, de que somos aproximadamente 1,2 milhão de pessoas. Quantos estão indo embora? 10 mil? 20 mil?

Que impacto isto tem na vida de quem fica? E a migração interna de brasileiros? Há alguns anos, milhares de trabalhadores foram para o sudoeste da Florida, na região de Fort Myers, Naples, Tampa e outras cidades. Segundo diziam, havia muito trabalho na área da construção civil e embora os salários fossem menores, o custo de vida também era menor, o que possibilitava uma vida sem maiores problemas, sem contar que nesta região há sol quase que o ano inteiro. Há as migrações para a Georgia, para a California e outros estados em menor escala.

Muitos disseram que jamais voltariam para as regiões frias e saturadas de brasileiros no norte. Passados alguns anos, não só voltaram, como tentam refazer as suas vidas, pois já não há mais trabalho na construção civil, que diga-se, chegou primeiro por lá. Um dos grandes problemas causados pela chegada de muita gente nesta região por exemplo, foi a queda dos salários, pois a mão de obra era farta e com isto os salários caíram.

È certo que alguns quando vieram para cá, o fizeram na incerteza do que de fato encontrariam em terras americanas, pois por mais que se diga que a vida aqui é dura e as vezes complicada, não se consegue transmitir o quanto para quem deseja vir. Há também a desilusão dos que já estão aqui há algum tempo que ao verem o tempo passar sem conseguir muitas coisas decidem pela volta.

Há uma teoria de que esta se voltando para o Brasil, porque o dólar se desvalorizou em relação ao real, e a pergunta que se faz é até quando a política monetária brasileira conseguirá manter as coisas neste patamar? Já vimos este filme antes e o final dele não é dos mais felizes não.

A falta de documentos é um agravante, mas não é o único, pois sempre se viveu na América desde sempre sem documentos e basta conversar um pouco com os mais antigos para se ter a noção exata das dificuldades enfrentadas por eles.

A realidade é que grande parte dos imigrantes brasileiros nunca foram lá muito fiéis a nada por aqui. Basta conversar com alguns líderes religiosos para se ter a noção exata disto. Hoje a pessoa congrega aqui numa igreja e amanhã estará em outra, e depois de amanhã noutra. Com o comércio é a mesma coisa. Não há garantia nenhuma de que o cliente de hoje será o mesmo de amanhã.

A crise por aqui vai passar, como já passaram todas as anteriores, e o negócio è esperar por dias melhores que virão sem dúvida alguma. Mais uma vez a TV Globo presta um desserviço à comunidade brasileira ao veicular meias verdades, carregando nas tintas do exagero mais uma vez. Certamente a crise vai passar, como a Globo também…

Filhos. Por que tê-los?

In Comportamento on July 10, 2007 at 4:11 pm

Foi lançado na França o livro No Kids – Quarenta razões para não ter filhos, onde Corinne Maier chama de “aspiração idiota” o desejo de ter filhos. Um dos absurdos do livros – entre outros tantos, diz que se for para sustentar um parasita, que se opte por um gigôlo. No entranto, ter filhos é uma aspiração de muita gente pelo mundo afora.

Enquanto alguns casais buscam a maternidade, em outras partes do do mundo é possível ver a diminuição de nascimentos. Desde o fim do comunismo a população da Rússia vem diminuindo cerca de 700 mil pessoas por ano – perdeu cerca de 6 milhões de habitantes; a Itália enfrenta uma crise de natalidade que causa preocupação das autoridades e países como a Alemanha e França enfrentam os mesmos problemas.

Nestes países a medida que a população vai envelhecendo, não há nascimentos suficientes para o aumento da expectativa de vida e para o aumento cada vez maior da população de idosos. O Japão é outro país que vê a sua população diminuir a cada novo ano. As previsões são de que a população diminua em 43 milhões de pessoas até 2050 – hoje são cerca de 143 milhões.

Os reflexos disto são visíveis em muitos lugares. 28% da população americana – 300 milhões de pessoas, têm menos de 20 anos, contra 20% na França e na Alemanha e 19% na Itália e no Japão. Já no Brasil são 36% da população. As autoridades fazem previsões de que estes jovens – na faixa dos 20 anos – se tornem pais com a idade média de 27 anos, trazendo uma perspectiva sombria para os países desenvolvidos. Até a década de 70 a média de idade era de 22 anos. Na mesma década de 70 um casal tinha em média quatro filhos, hoje eles dois filhos – considerando os países desenvolvidos, o que contribui para perspectivas sombrias no futuro. Uma outra tendência é a de que cada vez mais pessoas, principalmente na Europa, opte por ter animais de estimação em vez de filhos, ou ainda tê-los mais tarde, depois dos 30, anos.

A queda dos índices demográficos são evidentes também na Espanha, que registrou nos últimos dez anos os menores indicadores da sua história. Aliás, a queda dos índices de natalidade é um fenômeno que tem implicações sérias na economia dos países desenvolvidos. Em contrapartida, nos países em desenvolvimento os índices de natalidade são altíssimos, o que faz com que os respectivos índices de mortalidade sejam também elevados. Já na China ter mais de um filho é ser penalizado pelo estado que controla a natalidade com mão de ferro, pois a preocupação é a explosão demográfica. Uma outra característica da China, é que os filhos são na maioria das vezes criados pelos avós, pois os pais invariavelmente trabalham fora. Na contramão, a Itália oferece vantagens, como o pagamento do parto e de oferecer ajuda para quem quiser ter mais de um filho.

A concepção é buscada por uns e rejeitada por outros. Sofia Loren, a belissíma atriz italiana certa vez disse que ser mãe é padecer no paraíso, para justificar o peso da maternidade, talvez, porque os filhos lhe davam trabalho ou pelos quilos extras advindos da gravidez. Mesmo assim, Sofia teve dois filhos.

Se por um lado a opção de não ter filhos é colocada em prática por muita gente, a maternidade tem sido uma busca constante por casais de todas as idades e lugares.

São meninos e meninas cada vez maiores – e com saúde, mais belos e mais inteligentes do que as crianças que nasciam há 20 anos.

Para as mães e pais, os filhos são a reafirmação dos sonhos e de ver neles realizado tudo aquilo que um dia sonharam para si mesmos. Mais importante ainda é saber que estes filhos de brasileiros nascidos na América terão a oportunidade que seus pais não tiveram, pois as portas não estarão fechadas para eles, como muitas vezes estão para os seus pais.

São pais, que não ligam para nenhum obstáculo, como a idade ou para qualquer outra adversidade – os milhares de pessoas que optam por ter filhos, mesmo sabendo que o mundo tem se tornado um lugar cada vez mais difícil de se viver a cada ano que passa.

Enquanto uns optam por ter filhos, outros desprezam o privilégio da maternidade e da paternidade, seja por evitá-los por métodos contraceptivos ou por optar irresponsavelmente pelo aborto.

Fenway Park – Boston Red Sox

In Crônicas on February 26, 2007 at 3:27 am

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Fui visitar o Fenway Park – a casa do Red Sox, ou como dizem os nossos amigos hispanos – Los Meias Rojas. A Xerox Company, ou Zirox, na pronúncia carregada dos americanos, promoveu um evento e junto com Paulo DeOliveira, éramos os únicos brasileiros presentes. O estádio do Sox, tem mais de noventa anos, mas a impressão é que as obras ainda não acabaram. Gente andando para lá e para cá. Um verdadeiro frenesi. À volta ou no entorno do estádio tudo respira Sox, e toda a imediação é propriedade deles.

As obras dentro do estádio são intermináveis, e há sempre um anexo sendo construído ou recém inaugurado, além da limpeza impecável. Não há como deixar de notar a atmosfera saudosista do passado que terminou ontem, iniciando o futuro que começa hoje.

A recepção oferecida pela Xerox Company, foi no camarote, de onde é possível ver o campo debaixo dele. O bar-restaurante equipado com o que há de suficiente e necessário para passar ali umas boas horas. Um nome é onipresente – Ted Willians.

Para muitos dos brasileiros que moram aqui, Ted Willians é o nome do túnel que liga o centro de Boston ao Logan Airport e nada mais.

Nada disto. Ted Willians foi o mais importante jogador de beisebol do Red Sox em todos os tempos, e sua camisa número 9, é uma das cinco camisas levantadas pelo time – quando um jogador ou atleta americano se destaca com honra, a camisa que ele usou na sua trajetória é “levantada”, o que significa que nenhum outro jogador do time a usará jamais. A carreira de Ted Willians é mostrada nos mínimos detalhes, inclusive por um display colocado no lobby do restaurante, onde há desde fotos de Willians com sua família, até objetos de uso pessoal dele. Ao lado do display há um outro quadro com as legendas do que significa cada coisa. Muita gente pode dizer – coisa de americano! Nada disto. Se o personagem é um notável a sua memorabilia é exposta e cada um dos seus fãs sente-se como parte dela.

Ted Willians foi tão genial, que mudou até o lado da base no campo. Lá no meio das cadeiras da arquibancada que são verdes, há um encosto de uma cadeira vermelho. Pois foi ali que caiu uma bola rebatida por Ted Willians – a 512 feets de distância da base. Quinhentos e doze fets, como faz questão de ressaltar o cicerone que nos guia pelos corredores do estádio. A cadeira é disputada a cada jogo, e não há um fanático que não tenha tocado pelo uma vez nela.

Entre a nostalgia de Ted Willians, e o presente, havia uma movimentação no campo. Dream Field Day – algo como Um dia no campo dos Sonhos. O que vem a ser isto? Dois hospitais infanto-juvenis na região de Boston, levaram para lá alguns dos seus pacientes para uma manhã de atividades. Dezenas de adolescentes tentavam rebater uma bola lançada por uma máquina. A cada um que se aproximava da base para jogar, aparecia no telão do estádio o nome, o hospital e a cidade de cada um.

Tal como num jogo do Sox.

Inevitavelmente me veio a memória que nunca ou pelo menos não me lembro de ter visto nada parecido no Brasil. 

Velhos ídolos e celebridades do esporte são relegados ao ostracismo depois que param com suas carreiras; e muitos estádios e praças esportivas ficam deteriorando a cada dia – algumas vezes, por força da profissão, visitei estádios de futebol como o Morumbi, Pacaembu e outros lugares e pude ver o improviso e o descaso colaborando para a ruína daqueles lugares.

Sai dali, com a impressão de que Ted Willians continua vivo na memória de cada um dos fãs do Red Soks, vida aliás, que é privilegiada, quando se abrem os portões para permitir a quem está doente, ter uma expectativa maior dela, mesmo que seja por uns poucos instantes.
Coisas da América. Coisas de gente civilizada, que preserva o passado, investe no futuro e busca confortar quem padece de algum mal…

Vida na América 1

In Crônicas on January 3, 2007 at 12:12 am


A vida na América é de fato muito boa. Boa mesmo. Uma maravilha diriam alguns, tamanha são as facilidades que encontramos no dia-a-dia que nos proporcionam uma vida melhor e mais comoda. Só que isto as vezes nos torna um tanto quanto acomodados e meio indolentes. Mas, quem quer abrir mão de tantas coisas boas?

Drive thru
Coisa boa é o tal do drive thru. A gente nem precisa sair do carro para fazer o pedido. Até em farmácia tem, é só pedir e pagar. As vezes nos enroscasmos com algum haitiano ou indiano que não entende o que a gente fala. Mas, não tem problemas. Nós também não compreendemos o que eles falam…