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Os discípulos de Geazi

In Comportamento on September 7, 2009 at 3:08 am

Jehozadak Pereira

Li no blog do Volney Faustini, um post onde ele conta que assistindo o programa do Silas Malafaia viu o Morris Cerullo pedindo uma graninha, sabe-se-lá para que. Faustini escreveu uma carta aberta ao Malafaia perguntando se o dito cujo sabe o que significa 171. Resta saber se ele vai se dignar a ler.

Nota: Este artigo foi escrito em 2004, mas está mais atual do que nunca. Mesmo porque os espertalhões continuam aí na mídia pedindo dinheiro para seus projetos pessoais. Caem, os bigodes e os cabelos, mas as caras-de-pau continuam as mesmas.

Por causa da ética não criticamos. Por causa da tolerância, tomamos qualquer espertalhão como um dos nossos. Por causa da unidade aceitamos que vendilhões explorem a boa fé daqueles que, necessitados, vêem neles a esperança para os seus males e mazelas. Por causa da nossa ética, fazemos vista grossa àquilo que deturpa, corrompe e conspurca o santo Evangelho da graça de Jesus Cristo.

Eu me pergunto muitas vezes qual o rumo que a igreja está tomando? Para onde caminha a igreja? Qual será o resultado de tudo isto que nos cerca? Um tempo atrás entrevistei o Caio Fábio e ele disse uma coisa que me chamou a atenção. Afirmou que a igreja hoje – especialmente as neopentecostais – têm adotado práticas e ritos sincréticos que nada tem a ver com a liturgia das nossas igrejas tradicionais ou pentecostais. É um tal de sal grosso, banho de descarrego, corrente disto, corrente daquilo, mesa com toalhas brancas, velas, e tanta coisa que tomaria tempo e espaço demasiado para narrar aqui.

Ressalte-se que para o pobre necessitado nada é de graça. Há um preço a ser pago. Se ele quer prosperidade, assalta-se o bolso dele descaradamente. Se quiser saúde, tome o dinheiro dele. Se desejar um carro, uma casa? Veja o quanto a vítima tem na carteira? Não tem nada? Não tem problema! Dê um cheque pré-datado, que vai ser trocado na esquina com o agiota de plantão. E as campanhas dos “trezentos” de Gideão? O pobre deve estar se revirando na tumba de desgosto.

Haja trezentos valentes! É pregado nestes balcões de negócios que o indivíduo tem de dar para poder receber. Prega-se um evangelho deturpado, barato, vagabundo, insosso, nauseabundo, desprezível, e tudo o mais que se possa adjetivar este arremedo que eles teimam em corromper.

Onde está na Bíblia que é preciso dar algo para ter aquilo que se precisa? Os valentes de Gideão foram para uma batalha onde Deus estava no negócio, e a menos que minha Bíblia esteja errada, eu não encontro ali qualquer menção a dinheiro.

Mantém-se o cidadão encabrestado na ignorância de que ele precisa ofertar, ofertar, ofertar, cada vez mais, para que seja abençoado.

Mentirosos desprezíveis.

Um destes muitos bispos que povoam o mercado, certa feita afirmou que se um coitado – quem acredita nele, pede alguma bênção, paga por ela, pois é influenciado a dar, e não recebe o que espera, a culpa vai cair sempre em cima de quem suplica, e dizia ainda com cara de ratazana, que não recebeu por falta de fé. Prosseguia dizendo que o negócio dele é sempre sem risco algum de ter reclamação. Joga tudo na falta de fé e pronto. Se morrer não pode reclamar, se não recebe o que espera idem, e assim estes malandros prosseguem enriquecendo mais e mais.

A igreja hoje é doente por causa desta podridão a que é submetida, e não pensem que é somente no Brasil. É uma tendência mundial que varre as igrejas do planeta. Antigamente um homem entrava no ministério para ganhar almas, hoje – com raras exceções – entra para ganhar dinheiro.

Outro dia eu lia na internet, que o tal ”apóstolo” foi numa reunião de um clube de pastores, e disse na maior cara de pau, que seus “problemas” foram resolvidos. Logicamente, que ninguém espera que estes, digamos quadrilheiros, travestidos de crentes, sejam presos, mas me pergunto muitas vezes o que se passa na cabeça de um sujeito destes. Será que não tem o temor de Deus, será que não teme a mão do Senhor? Tem um outro arrogante que se diz escritor de livros – mas que na realidade são outros que escrevem para ele – que suas perorações, que ele transforma em livretos, sempre são inconclusas, pois quem quiser saber o que vai acontecer tem de comprar a série de três livros que ele vende ao final de cada uma das suas falas, seja em igrejas, seja na televisão. E o velhaco diz isto rindo, como que dizendo – enganei mais um trouxa. E olha que ele anda lépido e fagueiro a bordo de um carrão importado blindado que custa mais de R$ 200 mil. Perdoem-me a dureza, mas estes têm de ser denunciados.

Este mesmo, circunstancialmente, elege alguém para bater. O próprio Caio Fábio já foi vítima dele, quando o dito cujo recebia dinheiro para “bater” nele. Outras vítimas são conhecidas. Para uma delas nos Estados Unidos, ele pediu dinheiro para financiar um programa de televisão.

Quando ouviu a recusa falou mal até cansar, depois de receber uma régia oferta, que evidentemente ele nem falou em devolver.

Logo, logo tem mais uma eleição e certamente ele vai ganhar mais uns trocados defendendo algum “irmão” de fé. Para a platéia vai dizer que é por pura convicção. E há quem acredite nele.

E as oligarquias nas famosas convenções gerais? Passa de pai para filho ad eternum, os coronéis perpetuam-se no poder e na manipulação sem dar satisfação alguma, e suas vontades são leis que devem ser cumpridas de imediato, pois eles não admitem ser contrariados. Estão no poder há anos. Ouse perguntar quem será o substituto de qualquer deles? As decisões são verticais, manda quem pode e acabou.

E a apostolada? Nunca vi tanto apóstolo. E os carros? E as roupas? E os relógios? Tempos atrás eu vi um bispo pregando e ele se dizia muito humilde, muito simples, mas no púlpito disse que seu terno havia custado US$ 5 mil, na Laffaiette Galerie em Paris. Seu relógio havia custado à bagatela de US$ 12 mil, na Picadilly Circus, em Londres. No dia seguinte ele falou da camisa. O preço? US$ 1,2 mil, na Rodeo Drive, em Los Angeles, e o cara-de-pau dizia que aquelas eram parte das coisas que ele havia comprado. Fiquei imaginando o quanto custava o guarda-roupa dele. Vivia como outros tantos como um sibarita.

Quem bancava aquela luxúria toda? O povo que acreditava nele claro, tempos depois ouvi que ele havia se enveredado pelas barras da saia de uma jovenzinha, e o povo da sua igreja havia debandado. Ao ter esvaziado o negócio que ele chamava de igreja, o padrão de vida dele caiu bastante. Teve de vender o carro blindado, dispensar o séqüito de seguranças e motoristas, e se a coisa apertar ele pode vender os ternos, os relógios, as camisas… Como não era a primeira vez que o senhor epíscopo derrapava nas curvas de alguma donzela, a igreja foi contribuir em outra freguesia, deixando-o a ver navios.

De onde vem o dinheiro desta gastança toda? Do bolso de pobres coitados, explorados em intermináveis cultos diários nas filiais da sua igreja.

Voltando aos apóstolos, tem até apóstola no mercado. E o sonho dourado da apóstola é que cada estado brasileiro tenha o seu apóstolo, e cada um destes apóstolos deve ter outros doze com ele, e cada um destes doze deve ter outros e assim vai, e certamente gente que não conhece Bíblia, que não tem estofo moral e espiritual para o cargo que eles querem ocupar. Não demora e vai começar a estourar no Brasil escândalos e mais escândalos envolvendo estes “apóstolos”. É esperar para ver.

Irmãos, as bênçãos de Deus são gratuitas e dadas de bom grado, basta você ter fé. Se te pedirem dinheiro não dê.

Se te oferecerem uma corrente, não aceite, se te constrangerem a aceitar a palavra deles como verdade, refute, Deus não cobra nada de ninguém. Seu dever como crente em Cristo, é dar o seu dízimo e as suas ofertas alçadas, o que passar disto é errado diante de Deus, é pilantragem.

Gideão e os seus trezentos saíram para guerrear e vencer uma batalha. Hoje os tais “trezentos” envolvem invariavelmente dinheiro e usam o pobre do Gideão como desculpa esfarrapada. Manipulam o povo para que estes acreditem que para serem valentes tem de forçosamente mexer nas carteiras. Mentira.

E os leilões de “bênçãos” que eles fazem. Quem vai dar 10 mil? – Aqui não tem nenhum valente para dar 10 mil? E os de 5 mil? E por aí vão, extorquindo o povo.

Quem não tem dinheiro para dar, sente-se um lixo, e conseqüentemente desprezado por Deus. Nada disto. Repito que bênçãos não são vendidas, bênçãos são dadas por Deus. Pura e tão somente.

Hoje uma igreja não se mede pelas almas que ganha, e sim pelo que arrecada. É o fim da picada. Logicamente há as exceções a esta regra, mas elas estão cada vez mais difíceis de ser achadas.

Estes piratas seguem o exemplo e o legado de Geazi. Ao ver o verdadeiro homem de Deus recusar os presentes e o dinheiro de Naamã, um inconformado Geazi foi atrás da caravana do sírio para pegar para si aquilo que alimentaria seu espírito mercenário. Queria ficar rico, e a pequena fortuna rejeitada pelo profeta – o verdadeiro homem de Deus recusa os encantos do dinheiro fácil – Geazi deu início àquilo que ainda nos nossos dias encontra ressonância – o assalto aos bolsos alheios e deixou centenas, milhares de seguidores.

Fico imaginando o dia em que esta matilha tiver de prestar contas a Deus, todo poderoso, a respeito de tudo o que arrancaram do povo, o que eles vão dizer? Vão dizer que preferiram o exemplo e a prática de Geazi, em detrimento da atitude de Eliseu. É mais fácil, é mais cômodo e como enriquecem…

Em tempo: 171 é o artigo no Código Penal que define a pratica de estelionato.

Entrevistas: Russell Shedd

In Jornalismo on July 17, 2009 at 5:05 am

Há alguns anos entrevistei uma série de personalidades para a Refletir Magazine, onde fui editor por três anos, e um dos meus entrevistados nesta época foi Russell Shedd. Este material está guardado e resolvi publicá-lo aos poucos e dividir com os leitores. A entrevista que na época da sua publicação causou muita polêmica por causa das respostas do Dr. Shedd, foi publicada originalmente no www.refletir.com.

Russell Shedd

Americano nascido na Bolívia, onde seus pais foram missionários, Russell Shedd, serviu ao Evangelho em Portugal e adotou o Brasil para morar. Casado com D. Patrícia e pai de cinco filhos – Timóteo, Nataniel, Pedro, Helena e Joy, aos 74 anos, respondeu todas as perguntas – inclusive as mais polêmicas. É muito requisitado e viaja o mundo todo pregando. Crê que a igreja brasileira pode influenciar a igreja americana a pregar novamente como antes, inclusive retomar os investimentos na área de missões. É autor de vários livros, e fundador de Edições Vida Nova; é editor da Bíblia Shedd, e um dos mais respeitados teólogos e escritores e, também, uma autoridade em questões bíblicas. Foi entrevistado com exclusividade por Paulo DeOliveira e Jehozadak Pereira, para a Refletir Magazine. 

Refletir - A desigualdade social é um problema para a igreja atual?

Russell Shedd – Deve ser problema, mas não é muito focalizado como problema. Quando a gente fala de desigualdade, pensamos que isto ocorre do lado de fora e não dentro da igreja. É um assunto pouquíssimo abordado. Quando falamos em desigualdade social pensamos em meninos de rua, gente que não tem onde morar, etc. Logo que a pessoa se torna membro da igreja quase não vê isto. Pensa que não existe, mas existe sim.

Refletir - A ausência de tratamento de tais problemas, passa pela falta de discipulado?

Russell Shedd - Passa, pelo fato de que é um ninho de víboras. Se começar a falar vou ofender a pessoa que tem dinheiro, ele vai entender que tem de ajudar as pessoas necessitadas, o que talvez ele não queira fazer. E com isto vai se sentir ofendido.

Refletir - Então a igreja com medo de ofender não pede ajuda?

Russell Shedd - Isto. Eu tenho um amigo em New Jersey, e ele tem uma companhia que constrói nove escolas, e com certeza ele tem dinheiro, e contribui bastante para ajudar necessitados, e eu não posso pedir mais contribuição dele. A igreja pode ajudar. A igreja primitiva cuidava de viúvas e órfãos – milhares deles. Só no fim do primeiro século a igreja cuidava de três mil órfãos e viúvas – só a igreja de Antioquia. Havia outras 1,5 mil em Roma.

Refletir - Como o senhor vê o distanciamento da igreja destas práticas?

Russell Shedd - É o perigo de sentir que se o governo já tem um plano social, e achar que este projeto é melhor do que aquilo que a igreja pode fazer. Há também o medo de afetar os cofres da igreja. Logo, deixa-se para que o governo resolva o caso. Naquela época não havia interferência do governo e muito menos ajuda. Então a igreja tinha de agir.

Refletir - A falta de convicção é um outro grave problema na igreja hoje?

Russell Shedd - Este é o problema do mundo livre. Justamente porque não nos custa nada ser cristão. Logo, não custa nada abandonar o cristianismo, daí termos muitas pessoas que são ex-cristãos. Quem se arrisca muito para ser cristão, em países como a China, Índia, não é qualquer dificuldade que vai fazer com que o cidadão abandone o cristianismo.

Refletir - Esta falta de convicção, passa pela ausência de pregadores da graça de Deus?

Russell Shedd - Talvez haja pregação de graça barata. Deus é um Deus de leis. Toda a criação se baseia em leis, leis, leis, naturais, morais e espirituais. Toda causa tem um efeito. O que é a graça? É escapar do efeito da lei. Em vez de receber punição, castigo e morte, alguém vai me perdoar. Se eu pregar esta idéia com muita veemência e não colocar nada sobre a lei de Deus na criação, o que a pessoa vai pensar? Que Deus leva todo mundo para o céu. Não tem inferno, o purgatório já quase desapareceu – risos. O inferno também está desaparecendo, e daqui alguns anos ninguém mais vai falar no inferno. Isto significa que Deus é gracioso para com todo mundo, aliás, a Igreja Católica entrou nesta fase. Eu tenho informações de um alto funcionário da Igreja Católica, dizendo que Deus é gracioso, então não devemos falar de outra coisa. Nunca fale para o pecador que ele é condenado, fale que ele é aceito por Deus. Deus aceita todo mundo.

Refletir - O cidadão vem do jeito que está, não se trata, não se cura, vem baseado somente na graça?

Russell Shedd - Exatamente, é a graça barata.

Refletir - A igreja está doente?

Russell Shedd - De certo modo, a igreja é doente. Mas, há igrejas locais bem organizadas, são firmes teologicamente, recebem pregações bíblicas, e há outras que não falam da Bíblia, não usam a Bíblia, falam o pensamento que sai na cabeça.

Refletir - Isto no seu ver é muita teologia, ou falta de teologia?

Russell Shedd - É falta de teologia, que é buscar na Bíblia e organizar estas verdades dentro de uma lógica e de padrões e sistemas para dizer que uma verdade é uma verdade ou uma mentira. Quando se fala de condenação, dizer que Deus não condena ninguém, é uma declaração teológica, e não há uma condenação para ninguém que crê em Cristo.

Refletir - A criação de novas teologias não é um mal para a igreja?

Russell Shedd - Claro, a igreja fica vazia. Em países como a Inglaterra, a França que chegou a ter 40% da sua população de evangélicos, logo depois da reforma sob a influência dos calvinistas e huguenotes. Logo depois do massacre de São Bartolomeu foi caindo, caindo e hoje é menos de 0,5%, oitenta vezes menos! Esta é a situação em toda a Europa.

Refletir - O senhor vê isto como um avanço do misticismo e do esoterismo? Esta é uma tendência da igreja americana e brasileira?

Russell Shedd - Menos americana do que brasileira, mas com certeza é uma tendência aqui, porque os Estados Unidos segue a Europa em quase tudo, especialmente teológico. A igreja americana tem mais vitalidade, porque é nacional e está separada do Estado, como no Brasil. Na Alemanha, por exemplo, quem paga o pastor é o governo, e às vezes o pastor nem crente é, a exemplo de professores nos seminários teológicos. É por isso que as pessoas saem das igrejas e não voltam nunca mais. Na igreja do meu genro na Alemanha, eles colocaram no estatuto, que o pastor tem de ser crente.

Refletir - Com esta interferência do Estado, não voltamos a Constantino?

Russell Shedd - Tem razões históricas, com o Estado pagando pastores.

Refletir - Teologicamente, com o misticismo tomando conta do mundo, o senhor crê numa ação de Deus?

Russell Shedd - Em alguns lugares do mundo com certeza. Na China, em partes da África e até no Brasil, tem ocorrido mudanças notáveis e para melhor. Estive numa igreja em Santarém, no Pará, e houve um crescimento de uns 400 para 20 mil membros em dez anos. Tem dois mil grupos de estudos bíblicos na cidade que tem pouco mais de 300 mil habitantes; tem também 80 barcos subindo e descendo o rio, abriram mais de 250 igrejas, entregam filtros para que a população não sofra com disenteria. Isto para mim é um sinal de avivamento.

Refletir - O senhor crê que Deus vai agir em partes separadas e não uma ação geral a respeito da salvação?

Russell Shedd - É notável, que países que já tiveram oportunidades, o Evangelho fica parado. Norte da África, na Turquia – onde estive meses atrás, não há igrejas em parte alguma e o governo é contra totalmente, há uma antipatia generalizada. A Turquia foi o lugar onde a Ásia ouviu o Evangelho, uma vez que o Evangelho perde vez, é muito difícil voltar. O francês não quer nem saber do Evangelho. Um país quando volta para trás, é muito difícil, é como alguém que é imunizado, há países vacinados contra o Evangelho.

Refletir - Quando uma pessoa sofre por amor a Cristo, está terminando o sacrifício de Cristo. Quando o senhor afirma isto, diz então que o sacrifício de Cristo está incompleto?

Russell Shedd - Sim, são sacrifícios para tirar pecados. O sacrifício que Paulo fala é o do avanço do Evangelho, para a proclamação deste. Não para tirar pecados, mas, para entrar em terras dominadas por demônios.

Refletir - Mesmo com sofrimentos?

Russell Shedd - Só com sofrimento. Se quisermos dominar uma terra que nunca foi evangelizada, só com sofrimento.

Refletir - O senhor falou na Turquia, que é um país islâmico. O islamismo é o maior adversário do Evangelho hoje?

Russell Shedd - Sem dúvida alguma. É muito forte em países africanos, que tem influência católica. Em Moçambique, por exemplo, o islamismo é muito forte no norte do país. É como se uma onda fosse descendo. Na Nigéria, que tem até presidente evangélico, mas tem se dobrado ao islamismo. Veja o Sudão, onde há conflito entre o Evangelho e o islamismo causando martírios e mortes.

Refletir - Quais os fatores que fazem com que pessoas deixem o cristianismo para ir para o islamismo?

Russell Shedd - Não são tantos assim. São pessoas abertas ao animismo. A Guiné Bissau há 50 atrás era animista e hoje metade da população é islâmica. Aonde o cristianismo chegou primeiro o islamismo tem muito mais dificuldade de entrar. A África do Sul é um exemplo disto.

Refletir - Qual é a tendência da igreja no século 21?

Russell Shedd - Têm diferentes tendências. Na Ásia, a igreja cresce muito e rapidamente. Nos Estados Unidos, me parece que há uma acomodação, principalmente nesta região. No Sul, a igreja é muito forte e cresce bastante. No Brasil, há um crescimento do evangelicalismo, mas há uma forte tendência de se aderir à teologia da prosperidade, que se não for muito bem sustentada e ministrada através de estudos bíblicos, para que as pessoas possam entender o que significa um compromisso com o senhorio de Cristo, e não para receber uma vida confortável, emprego, etc.

Refletir - Quais são as necessidades da igreja?

Russell Shedd - Pregação expositiva da palavra. Pessoas que preguem mesmo.

Refletir - O senhor vê uma solução em curto prazo?

Russell Shedd - Não. Tem de começar nas escolas, seminários, púlpitos, etc. Literatura. Quando começamos a Vida Nova em 1962, o interesse em literatura mais consistente era muito pequeno, e demorávamos anos para vender uma edição qualquer de um livro teológico. Hoje não. Vende mais rápido e mais fácil. Isto nos anima. Estamos esperando homens brasileiros com conhecimento e profundidade para escrever, e eles estão chegando. Já temos alguns, um deles é o pastor Luiz Sayão.

Refletir - Quem são os pensadores na igreja brasileira hoje?

Russell Shedd - Boa pergunta. Augustus Nicodemos, Luiz Sayão, Ivênio dos Santos, Ari Veloso, Carlos Oswaldo, Ariovaldo Ramos, Ed René, e muitos outros.

Refletir - Quem é o grande nome do Evangelho no Brasil hoje?

Russell Shedd - Além de Caio Fábio? Nunca houve nenhuma dúvida que ele era o grande nome. Agora quem fica no lugar dele? Talvez o Ricardo Gondim, que é um pensador, e entendo agora que algumas coisas que ele tem escrito são perigosas, ele tem ido muito para a linha arminiana, e tem uma reação muito forte contra qualquer idéia – que para mim é bíblica – calvinista. Isto tem empurrado ele para uma teologia de Deus de processo – esperar para ver o que vai acontecer.

Refletir - Com a queda do Caio Fabio, não era o Ricardo Gondim, que tinha de assumir o papel deste? Ele se omitiu?

Russell Shedd - Que eu saiba não. Ele não se omitiu. Ele articula suas posições, prega bastante, acho que o Edir Macedo tem mais influência, talvez por causa da rede de televisão. Há também o R. R. Soares, que é o rosto que mais aparece na TV brasileira hoje, inclusive em horário nobre.

 Refletir - Como o senhor vê estes homens teologicamente?

Russell Shedd - É nesta linha da prosperidade, mas penso que eles crêem na salvação, só que isto não fica muito claro, eles não enfatizam isto, creio que por causa da audiência. Não sei porque eles não chamam as pessoas ao arrependimento.

Refletir - O senhor crê que é o misticismo entrando junto com a prosperidade?

Russell Shedd - Talvez. Mesmo assim, existem muitas conversões, tenho visto muitas pessoas convertidas nestas igrejas.

Refletir - Estes líderes o preocupam?

Russell Shedd - Sim, eles nunca participam de nada, nunca ouvem ninguém, são uma incógnita. Eles se acham poderosos e vêem os outros como pessoas sem importância.

Refletir - Será que não é o pensamento de que a letra mata?

Russell Shedd - Pode ser. Veja o caso da Assembléia de Deus. Eles se isolaram, e as denominações que tinham mais formação teológica, queriam jogar para fora as influências carismáticas. Nos anos 60 as denominações se dividiram por causa do pentecostalismo. Desenvolveram posições opostas, e hoje está bem mais moderado.

Refletir - Os dons da igreja primitiva estão disponíveis para a igreja hoje?

Russell Shedd - Em alguns lugares, não em geral. Veja lá em Apocalipse; igrejas que começaram bem e depois decaíram. E se Deus quer, podem estar disponíveis em todos os lugares. Depende do Senhor e de como Ele quer derramar o seu poder.

Refletir - O que significa para um batista conservador conviver com as diversidades cristãs no Brasil?

Russell Shedd - É só por sermos filhos de um mesmo pai. As divergências de posições e pensamentos são de menos importância do que o fato de que somos irmãos.

Refletir - Se o senhor tivesse que começar sua carreira hoje, por onde iniciaria?

Russell Shedd - Tentaria pecar menos – risos.

Refletir - O senhor é um homem feliz?

Russell Shedd – Plenamente.

Entrevistas: Caio Fábio

In Jornalismo on May 25, 2009 at 3:00 am

Há alguns anos entrevistei uma série de personalidades para a Refletir Magazine, onde fui editor por três anos, e o Caio Fábio foi uma delas que mais me honrou fazer. Como este material está guardado, resolvi publicá-las aos poucos e dividir com os leitores. A entrevista foi publicada originalmente no www.refletir.com.

 

Caio Fábio

Às vésperas dos 50 anos, num passado recente, o nome mais importante da igreja evangélica brasileira vive um período de reflexão e de encontro consigo mesmo, depois de enfrentar problemas pessoais que o levaram para um auto-isolamento. Ao lançar seu portal de artigos e textos na internet, que teve quase dois milhões de acessos em pouco mais de oito meses, Caio Fábio teve consciência da sua importância para com o público que o admira, que orou e que esperou pela sua volta à ativa. Nesta entrevista exclusiva para Refletir Magazine, Caio Fábio não deixou nenhuma pergunta sem resposta e com a inteligência que lhe marca a personalidade, criticou o verdadeiro mercado que toma conta de muitos segmentos da igreja brasileira. Confira a entrevista.

Refletir – O que o senhor tem feito hoje, qual é a sua rotina e onde tem exercido o pastorado?

Caio Fábio – Depois de 1998, que foi o pior ano da minha existência, onde tudo aconteceu comigo, onde eu senti a dor da perda, angústia, depressão, e resolvi, por três anos, cuidar de mim, da minha saúde; tirar um tempo para a minha família, ficar quietinho, em absoluto silêncio. Todas as minhas rotinas eram voltadas para mim mesmo. Por natureza, todas as vezes que estou deprimido, rocuro estar em contato com a natureza – deve ser coisa de amazonense -, pois depressão não me põe no quarto, me põe descalço, querendo tomar banho; e foi o que eu fiz. Fui para minha terra ficar com meu pai, que é o meu melhor amigo, onde encontro ressonância espiritual e ressalto a relação pai e filho.

Refletir – E quando surgiu a hora de voltar?

Caio Fábio – De dois anos para cá, vi que era hora de fazer alguma coisa, e eu não queria me envolver com nada muito grande. A editora Razão Cultural, que lançou o livro que escrevi em 1999, me ofereceu um espaço para que eu fizesse reuniões em Copacabana, e insistiu para que eu fosse para lá. Foi montado uma livraria, um espaço cultural, e eu não queria algo que desse a conotação de igreja, mas não adiantou: nasceu espontaneamente. O povo começou a me amar, a demonstrar carinho, e aí surgiu o Café com Graça. E logo começaram aparecer convites para viajar. Pelo menos uma vez por mês eu viajo com minha esposa para falar em algum lugar.

Refletir – Este período de reclusão e isolamento foi um ajuste de contas com senhor mesmo?

Caio Fábio – Nem sei se foi um ajuste de contas, pois em determinado momento você fica tão bombardeado que nem tem tempo para sentir as dores. Parecia que estava jogando uma pelada, me rasgando todo, machucando os dedos, caindo, mas só vai sentir os efeitos na hora de tomar banho. Ai é que vai doer tudo, principalmente quando se deita na cama e não se consegue levantar no dia seguinte. Foi um corredor polonês tão intenso que eu nem tive tempo para sentir as dores, e você vai sobreviver as pancadas, e depois disto vai entrar num processo de verificar onde está doendo, e tem todas as outras coisas relacionadas. Eu busquei tratar de mim, com plena consciência daquilo que tinha feito, sem nunca carregar o peso do mundo nas minhas costas, que nunca foi minha vocação. O meu acerto com Deus não foi um processo muito longo. Elevação e derrocada acontece quando você anda na presença Dele, eu nunca estive fora da presença de Deus, mesmo no pior momento.

Refletir – Que lições o senhor tirou disso tudo?

Caio Fábio – Todo esse processo serviu para me mostrar quem de fato era meu amigo, ou quem somente estava interessado em tirar proveito. Houve um processo de reacomodação da vida muito sério e profundo, praticamente foi como você levantar da morte e ter assistido ao seu funeral, tendo visto quem chorou ou não, quem se alegrou, quem comemorou, quem disse – ai, meu Deus, por que isto aconteceu com ele? Voltei à vida sabendo exatamente o que fazer: agradecer quem sofreu comigo, identificar quem foi grosseiro, quem se aproveitou da situação e acolher aqueles que se afastaram por covardia, por medo ou por motivos diversos, e que pediram desculpas.

Refletir – As pessoas que lhe atacaram foram de dentro ou de fora da igreja? A causa dos ataques foi o Dossiê Cayman?

Caio Fábio – São duas coisas diferentes. A igreja não ficou nem aí para a história do Dossiê Cayman. Só se escandalizou com a minha separação e o meu divórcio, e de eu ter assumido o relacionamento que foi o pivô da minha separação. As pessoas estavam muito longe. Eu nunca tive uma vida conjugal ruim, eu só não tinha uma vida conjugal; eu criei a minha esposa. Ela era uma menina de dezesseis anos que chegou na minha vida no momento da minha conversão. Eu nunca senti nada a não ser um amor fraternal e carinho. Ela foi a primeira pessoa de quem falei do amor de Jesus, que evangelizei, que levei a Cristo. Não há culpados nesta história.

Refletir – Não havia afetividade então?

Caio Fábio – No nível conjugal não, só fraterno. Eu sempre fui o pai dela. Tivemos quatro filhos juntos e ela nunca se iludiu em saber que tinha de mim respeito, amizade, carinho, consideração, proteção. E este foi um assunto conversado por nós durante os quase vinte e cinco anos de casamento. Não era possível, eu que sempre fiz tudo com paixão, não sentir o mesmo conjugalmente.

Refletir – Foi consciente tanto da tua parte, como da parte dela?

Caio Fábio – Da minha sim, e da dela também, que já tinha consciência antes de casar, mas quis casar assim mesmo e me pediu perdão muitas vezes por ter forçado a barra, mesmo sabendo que eu não a amava como mulher, embora a amasse em outras áreas. Houve alguns indivíduos extremamente oportunistas que entraram na história para poder criar situações que não existiam, exacerbações, tentaram demonizar a situação inteira, e o abalo foi exatamente proporcional ao significado, eu diria místico que a minha existência tinha na cabeça de milhões, foi isto que afetou a cabeça dos evangélicos. Foi como assistir a queda de alguma coisa que as pessoas tinham como inextinguível. Tudo isto fantasia e projeção na cabeça das pessoas, porque eu tenho 113 livros testemunhando a afirmação da minha humanidade o tempo todo. Só não leu quem não quis. Nunca enganei ninguém, é só ler os meus livros. Meus temas no meio evangélicos foram chamando para a humanidade e fugindo da falsa espiritualidade.

Refletir – E na sociedade?

Caio Fábio – Eu já não era uma pessoa com relacionamentos somente no nosso meio, mas com credibilidade para a sociedade. Para estes o divórcio não significou absolutamente nada. O que os tocou foi à história do Dossiê Cayman, por que eu tinha tido uma vida ilibada e irrepreensível, sempre optando pelas coisas e pelas causas justas, e não entendiam como uma pessoa com a minha consciência estava fazendo parte de uma coisa tão nebulosa como aquela. Foi o prejuízo para o lado de fora. Na igreja muito pouca gente deu atenção para o Dossiê Cayman.

Refletir – O senhor, como um homem respeitado e admirado tanto no mundo evangélico quanto no secular, não foi ingênuo em entrar nesta barca do Dossiê Caymam?

Caio Fábio – Foi total. Eu nunca quis entrar nesta história, e eu não posso citar os nomes das pessoas porque iria ser um estrago.

Refletir – Então, o senhor foi usado?

Caio Fábio – Eu não diria que fui usado, pois não sou uma pessoa para me eximir de responsabilidades neste nível. Eu poderia ter dito: olha, não participo, não quero, não sei, não estou querendo ajudar em nada; e foi isto o que eu disse muitas vezes, que não queria e que me deixassem fora, eu tenho isto documentado e gravado. Figuras públicas eminentes, a maior parte delas ligadas à esquerda, e que não souberam nada pela minha boca. Foi uma outra pessoa que contou para um amigo meu; figura importante no mundo político e ele veio ao meu escritório me cobrando, dizendo que eu sabia do caso a quase um ano e que não havia dito nada. Eu falei para ele que o meu negócio é pregar o Evangelho e que este não é o meu business. Eu não tenho nada a ver com isto. Não quero participar disto. Daí outras pessoas, inclusive uma relacionada ao meio evangélico, foram se unindo e formaram um bloco de mais ou menos seis pessoas, que me ligaram todos os dias quatro, cinco, seis vezes, durante seis meses. É fácil aparecer às evidências disto, é só pegar os telefones celulares deles e ver quantas vezes cada um deles me ligavam. Aquelas ligações eram incomuns, pois antes a gente se falava a cada quinze dias.

Refletir – Tudo gente da esquerda?

Caio Fábio – Da esquerda, e um ou dois evangélicos. Implorando, chorando e me dizendo – salva a gente. Eu não vou me eximir de responsabilidade, eu devia dizer não, que foi o que eu fiz a vida inteira. As pessoas sempre tentaram tirar proveito de mim, e estou habituado a sempre dizer não. Mas a pressão foi muito grande, e junto com o processo da separação, eu estava muito fragilizado, e mesmo não querendo eu cedi. Este é o meu pecado, mesmo não querendo, e não desejando nada disto, sucumbi ao apelo deles pela seguinte via – por favor, ajuda a gente, pois nós vamos ganhar esta eleição de qualquer jeito, e vamos dar amparo para você respirar e refazer sua vida. Não foi sem relutância, eles insistiram muito para aproximá-los das pessoas que tinham a informação. A culpa deles no cartório é imensamente maior do que eles possam admitir. Eu tenho me comportado não por causa deles, mas por causa da minha consciência diante de Deus, por que se eu tivesse falado a respeito do assunto, alguns deles não teriam sido eleitos na eleição passada. Eu não quero nada de ninguém, eu tenho pedido a Deus que me deixem quieto, e não quero nada deles, só quero viver em paz e refazer meu ministério.

Refletir – No seu modo de pensar, a igreja está doente?

Caio Fábio – Profundamente doente. Muito mais doente do que a sociedade que a circunda. A igreja esconde a suas doenças. É muita “paz do Senhor” escondendo a vontade de matar. “Minha irmãzinha amada, se você me desse mole, eu te pegava hoje.” Enquanto a igreja não se enxergar na Graça de Deus, ela vai ficar cada vez mais doente; é um cego guiando outro cego em direção ao abismo.

Refletir – A liderança da igreja hoje é responsável por este quadro de coisas?

Caio Fábio – Totalmente. Assim como é o povo é o sacerdote, ou seja, eu estou falando daqueles que se arrogam deste papel, e como diz Tiago no capítulo 3, sofrerão um juízo muito mais rigoroso. Porque eles é que estão fazendo este carnaval. O que nós temos hoje no Brasil, já não são mais igrejas cristãs. Com algumas exceções, você vê indivíduos cristãos; e esta estrutura que existe é pagã. É macumba sendo feita em nome de Jesus; é umbanda feita em nome de Jesus. A mecânica espiritual que está em processo é a do sacrifício dos ritos pagãos, apenas as nomenclaturas é que servem de uma maneira estelionatária das simbolizações cristãs, mas os conteúdos são pagãos. Só não vê quem não quer. Estas teologias todas da prosperidade que estão por aí, nada mais são do que barganhas com Deus. Faz isto que Deus vai fazer aquilo.

Refletir – Isto mostra que a vinda do Senhor Jesus está próxima?

Caio Fábio – Eu nunca vi um cenário tão parecido, tão apocalíptico, não só na igreja como no mundo, no planeta; é o maior cenário jamais visto na história: da apostasia da igreja às questões do meio ambiente.

Os rumos da igreja – os discípulos de Geazi

In Opinião on October 6, 2007 at 5:18 am

Nota: Este artigo foi escrito em 2004, mas está mais atual do que nunca. Mesmo porque os espertalhões continuam ai na mídia pedindo dinheiro para seus projetos pessoais. Caem, os bigodes e os cabelos, mas as caras-de-pau continuam as mesmas.

Por causa da ética não criticamos. Por causa da tolerância, tomamos qualquer espertalhão como um dos nossos. Por causa da unidade aceitamos que vendilhões explorem a boa fé daqueles que, necessitados, vêem neles a esperança para os seus males e mazelas. Por causa da nossa ética, fazemos vista grossa àquilo que deturpa e corrompe e conspurca o santo Evangelho da graça de Jesus Cristo.

Eu me pergunto muitas vezes qual o rumo que a igreja está tomando? Para onde caminha a igreja? Qual será o resultado de tudo isto que nos cerca? Outro dia eu lia uma entrevista do Caio Fábio – www.refletir.com, e ele disse uma coisa que me chamou a atenção. Afirmou que a igreja hoje – especialmente as neopentecostais – tem adotado práticas e ritos sincréticos que nada tem a ver com a liturgia das nossas igrejas tradicionais ou pentecostais. É um tal de sal grosso, banho de descarrego, corrente disto, corrente daquilo, mesa com toalhas brancas, velas, e tanta coisa que tomaria tempo e espaço demasiado para narrar aqui.

Ressalte-se que para o pobre necessitado nada é de graça. Há um preço a ser pago. Se ele quer prosperidade, assalta-se o bolso dele descaradamente. Se quiser saúde, tome o dinheiro dele. Se desejar um carro, uma casa? Veja o quanto a vítima tem na carteira? Não tem nada? Não tem problema! Dê um cheque pré-datado, que vai ser trocado na esquina com o agiota de plantão. E as campanhas dos “trezentos” de Gideão? O pobre deve estar se revirando na tumba de desgosto.

Haja trezentos valentes! É pregado nestes balcões de negócios que o indivíduo tem de dar para poder receber. Prega-se um evangelho deturpado, barato, vagabundo, insosso, nauseabundo, desprezível, e tudo o mais que se possa adjetivar este arremedo que eles teimam em corromper.

Onde está na Bíblia que é preciso dar algo para ter aquilo que se precisa? Os valentes de Gideão foram para uma batalha onde Deus estava no negócio, e a menos que minha Bíblia esteja errada, eu não encontro ali qualquer menção a dinheiro.

Mantém-se o cidadão encabrestado na ignorância de que ele precisa ofertar, ofertar, ofertar, cada vez mais, para que seja abençoado.

Mentirosos desprezíveis.

Um destes muitos bispos que povoam o mercado, certa feita afirmou que se um coitado – quem acredita nele, pede alguma bênção, paga por ela, pois é influenciado a dar, e não recebe o que espera, a culpa vai cair sempre em cima de quem suplica, e dizia ainda com cara de ratazana, que não recebeu por falta de fé. Prosseguia dizendo que o negócio dele é sempre sem risco algum de ter reclamação. Joga tudo na falta de fé e pronto. Se morrer não pode reclamar, se não recebe o que espera idem, e assim estes malandros prosseguem enriquecendo mais e mais.

A igreja hoje é doente por causa desta podridão a que é submetida, e não pensem que é somente no Brasil. É uma tendência mundial que varre as igrejas do planeta. Antigamente um homem entrava no ministério para ganhar almas, hoje – com raras exceções – entra para ganhar dinheiro.

Outro dia eu lia na internet, que o tal ”apóstolo” foi numa reunião de um clube de pastores, e disse na maior cara de pau, que seus “problemas” foram resolvidos. Logicamente, que ninguém espera que estes, digamos quadrilheiros, travestidos de crentes, sejam presos, mas me pergunto muitas vezes o que se passa na cabeça de um sujeito destes. Será que não tem o temor de Deus, será que não teme a mão do Senhor? Tem um outro arrogante que se diz escritor de livros – mas que na realidade são outros que escrevem para ele – que suas perorações, que ele transforma em livretos, sempre são inconclusas, pois quem quiser saber o que vai acontecer tem de comprar a série de três livros que ele vende ao final de cada uma das suas falas, seja em igrejas, seja na televisão. E o velhaco diz isto rindo, como que dizendo – enganei mais um trouxa. E olha que ele anda lépido e fagueiro a bordo de um carrão importado blindado que custa mais de R$ 200 mil. Perdoem-me a dureza, mas estes tem de ser denunciados.

Este mesmo, circunstancialmente, elege alguém para bater. O próprio Caio Fábio já foi vítima dele, quando o dito cujo recebia dinheiro para “bater” nele. Outras vítimas são conhecidas. Para uma delas nos Estados Unidos, ele pediu dinheiro para financiar um programa de televisão.

Quando ouviu a recusa falou mal até cansar, depois de receber uma régia oferta, que evidentemente ele nem falou em devolver.

Logo, logo tem mais uma eleição e certamente ele vai ganhar mais uns trocados defendendo algum “irmão” de fé. Para a platéia vai dizer que é por pura convicção. E há quem acredite nele.

Na próxima eleição quando o seu pastor falar que vai apoiar algum candidato, pergunte o quanto ele vai estar ganhando pelo apoio, e não se espante se ele mandar excluir você por causa do questionamento.

E as oligarquias nas famosas convenções gerais? Passa de pai para filho ad eternum, os coronéis perpetuam-se no poder e na manipulação sem dar satisfação alguma, e suas vontades são leis que devem ser cumpridas de imediato, pois eles não admitem ser contrariados. Estão no poder há anos. Ouse perguntar quem será o substituto de qualquer deles? As decisões são verticais, manda quem pode e acabou.

E a apostolada? Nunca vi tanto apóstolo. E os carros? E as roupas? E os relógios? Tempos atrás eu vi um bispo pregando e ele se dizia muito humilde, muito simples, mas no púlpito disse que seu terno havia custado U$ 5 mil, na Laffaiette Galerie em Paris. Seu relógio havia custado à bagatela de U$ 12 mil, na Picadilly Circus, em Londres. No dia seguinte ele falou da camisa. O preço? U$ 1,2 mil, na Rodeo Drive, em Los Angeles, e o cara-de-pau dizia que aquelas eram parte das coisas que ele havia comprado. Fiquei imaginando o quanto custava o guarda-roupa dele. Vivia como outros tantos como um sibarita.

Quem bancava aquela luxúria toda? O povo que acreditava nele, pois recentemente ouvi que ele havia se enveredado pelas barras da saia de uma jovenzinha, e o povo da sua igreja havia debandado. Ao ter esvaziado o negócio que ele chamava de igreja, o padrão de vida dele caiu bastante. Teve de vender o carro blindado, dispensar o séqüito de seguranças e motoristas, e se a coisa apertar ele pode vender os ternos, os relógios, as camisas… Como não era a primeira vez que o senhor epíscopo derrapava nas curvas de alguma donzela, a igreja foi contribuir em outra freguesia, deixando-o a ver navios.

E por falar em sibarita, há um deles dono de uma grande; imensa igreja em São Paulo, que diz sentir o maior prazer em poder entrar numa loja de sapatos em New York, e gastar U$ 10 mil, de uma única vez, sem que ninguém o incomode com perguntas, ou ainda comprar quadros que variam de U$ 40 a U$ 100 mil sem se sentir culpado por isso. De onde vem o dinheiro desta gastança toda? Do bolso de pobres coitados, explorados em intermináveis cultos diários nas filiais da sua igreja.

Voltando aos apóstolos, tem até apóstola no mercado. E o sonho dourado da apóstola é que cada estado brasileiro tenha o seu apóstolo, e cada um destes apóstolos deve ter outros doze com ele, e cada um destes doze deve ter outros e assim vai, e certamente gente que não conhece Bíblia, que não tem estofo moral e espiritual para o cargo que eles querem ocupar. Não demora e vai começar a estourar no Brasil escândalos e mais escândalos envolvendo estes “apóstolos”. É esperar para ver.

Outro dia mesmo recebi um e-mail, onde o remetente me contava a história de um imóvel doado para um apostolado. Dizia também que havia uma queixa crime contra o apóstolo, por que o imóvel doado ao apostolado, estava registrado no nome de quem? Tem uma caixa de doces quem descobrir.

Bingo! No nome do “seu” apóstolo, lógico.

E a profetada? Tem um conferencista no Brasil, que aonde vai entrega sempre a mesma profecia. É batata. Um amigo meu foi vê-lo pregar em duas igrejas diferentes, e nas duas igrejas Deus “usou” ele para entregar a mesma profecia para dois homens diferentes, logo o meu amigo descobriu assistindo aos vídeos que em cada lugar que ele ia havia sempre uma vítima para receber, a mesma mensagem. Tal e qual as outras anteriores.

Irmãos, as bênçãos de Deus são gratuitas e dadas de bom grado, basta você ter fé. Se te pedirem dinheiro não dê.

Se te oferecerem uma corrente, não aceite, se te constrangerem a aceitar a palavra deles como verdade, refute, Deus não cobra nada de ninguém. Seu dever como crente em Cristo, é dar o seu dízimo e as suas ofertas alçadas, o que passar disto é errado diante de Deus, é pilantragem.

Gideão e os seus trezentos saíram para guerrear e vencer uma batalha. Hoje os tais “trezentos” envolvem invariavelmente dinheiro e usam o pobre do Gideão como desculpa esfarrapada. Manipulam o povo para que estes acreditem que para serem valentes tem de forçosamente mexer nas carteiras. Mentira.

E os leilões de “bênçãos” que eles fazem. Quem vai dar 10 mil? – Aqui não tem nenhum valente para dar 10 mil? E os de 5 mil? E por ai vão, extorquindo o povo.

Quem não tem dinheiro para dar, sente-se um lixo, e conseqüentemente desprezado por Deus. Nada disto. Repito que bênçãos não são vendidas, bênçãos são dadas por Deus. Pura e tão somente.

Hoje uma igreja não se mede pelas almas que ganha, e sim pelo que arrecada. É o fim da picada. Logicamente há as exceções a esta regra, mas elas estão cada vez mais difíceis de ser achadas.

Estes piratas seguem o exemplo e o legado de Geazi. Ao ver o verdadeiro homem de Deus recusar os presentes e o dinheiro de Naamã, um inconformado Geazi foi atrás da caravana do sírio para pegar para si aquilo que alimentaria seu espírito mercenário. Queria ficar rico, e a pequena fortuna rejeitada pelo profeta – o verdadeiro homem de Deus recusa os encantos do dinheiro fácil – Geazi deu início àquilo que ainda nos nossos dias encontra ressonância – o assalto aos bolsos alheios.

Fico imaginando o dia em que esta matilha tiver de prestar contas a Deus, todo poderoso, a respeito de tudo o que arrancaram do povo, o que eles vão dizer? Vão dizer que preferiram o exemplo e a prática de Geazi, em detrimento da atitude de Eliseu. É mais fácil, é mais cômodo e como enriquecem…