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Impressões de uma viagem – parte 1

In Comportamento on June 8, 2009 at 4:36 am

Jehozadak Pereira

Depois de algum tempo sem viajar para lugar algum, precisei ir à California e fazer a viagem de volta para Boston de carro. Três mil milhas. Sim, três mil milhas, ou 44 horas e alguns minutos, ou mais ainda, um caminho interminável.

Já conhecia a California e me surpreendi logo na chegado ao aeroporto de Long Beach, cujas formas arquitetônicas são dos anos 60, e um certo ar de nostalgia. A vida lá parece ter parado no tempo. Circulando pelo aeroporto deu para ver velhinhos de cabelos impecáveis e velhinhas que pareciam ter ido no mesmo cabelereiro do Bozo, pois os penteados eram rigorosamente iguais, sem contar aquelas de cabelo azul, que a gente só vê em filmes.

Circular pelas estradas da California, especialmente pela região de Los Angeles, é um desafio para quem dirige no trânsito de New England, onde a velocidade é reprimida e não se permite ir cinco milhas além do limite permitido sem que sejamos parados pela polícia, aliás, os policiais de New England teriam ataques só de ver o quanto andam os motoristas na California.

Bela, muito bela California, com suas montanhas e riqueza que chega a beira do exagero. Há pobreza também, mas isto é uma outra história. Meu destino era a região de Palm Desert, por sinal muito quente no inverno e por isso mesmo, povoado de gente que já se aposentou e foge do frio como o cão da cruz. Há também os bon vivants, com seus paletós de botões dourados, mocasins sem meia e mulheres de todas as idades com carteiras recheadas de dólares e muita disposição para deixá-los em alguma loja.

Para chegar a região do low desert, passo por centenas, milhares de hélices heólicas gerando energia, a partir da captação do vento, num balé ritimado e belo ao mesmo tempo, deve ser por isso que este estado é tão rico. Passo pela segunda rua mais cara dos Estados Unidos – a El Paseo, mas antes cruzo a Frank Sinatra Boulevard, deve ser por que ele morava por aqui. Morava mesmo. Tinha um rancho no sopé das montanhas. Fico imaginando como deve ser o rancho do The Voice.

Em Palm Desert que fica no Desert Area – a segunda região mais rica dos Estados Unidos, há restaurantes e lojas em profusão – todos muito caros, e é onde se vende a gasolina mais cara do país, mas nada que faça qualquer rombo nas contas milionárias. Um nome familiar me chama a atenção pelo nome brasileiro – Picanha, uma churrascaria que serve rodízio e caipirinha que é consumida às centenas todas as noites, e de preço salgado – US$ 35,96 mais serviço, bebida e sobremesa. O dono? É um egípicio que foi fazer um estágio de seis meses no Rio Grande do Sul para ver como se faz um churrasco de verdade. Já o arroz e feijão muito bom por sinal, quem faz é o Tonho e a Lupe, dois mexicanos, como a maioria dos funcionários.

O filme Ocean 12, foi filmado num dos muitos cassinos existentes na região, e muita gente lembra da beleza ímpar de Catherine Zeta Jones, já o público feminino prefere Brad Pitt, George Clooney e Michael Douglas, que embora não trabalhasse no filme, estava cuidando de Zeta Jones, cuidados plenamente justificáveis.

Nas ruas cruza-se e é possível parar ao lado de bólidos como Mercedes Benz, Ferrari, Porshe, Maserati, Rolls Royce, Lamborghini, Jaguar, dirigidos sem culpa nenhuma e por gente que só quer ser feliz, e parecem ser mesmo.

A opulência é tanta que a renda per capita ali é de US$ 138 mil por ano, um exagero para os padrões americanos. Há vilas e condomínios lindíssimos. Andando mais um pouco e dá para ver o estádio de tênis de Indian Wells, construído especialmente para a etapa anual do Master Series, que em 2005 foi vencida pelo suiço Roger Federer, chamado lá de Federexpress, pela qualidade do seu jogo.

O café da manhã dominical foi tomado num cassino – muito bom por sinal, numa mesa farta e variada, o que justifica a fama de que na California tudo é superlativo. A California fala inglês e espanhol – não necessariamente nesta ordem – e a influência espanhola está em todos os lugares, a começar pelo nome das cidades. Los Angeles, San Bernardino, San Diego, Santa Ana, San Francisco, Santa Barbara, Santa Monica, e, chega de santos, pois a relação é imensa.

Voltando ao café da manhã, era possível encontrar em muitas mesas turistas japoneses, coreanos e filipinos recuperando as forças para apostar mais ainda. Na California, como em todos os Estados Unidos os cassinos ficam em reservas indígenas, que arrecadam milhões de dólares por ano. Os caciques de verdade andam em picapes que custam verdadeiras fortunas e alguns têm até avião, sem contar aqueles que se formam nas melhores universidades americanas.

Ao pegar a estrada noto que não há Chips em lugar algum, por mais que eu procure. Procuro também por Frank Poncherello e John Baker, patrulheiros cujos papéis eram de Eric Estrada e Larry Wilcox. Nem sinal deles, Já Eric Estrada pode ser encontrado na Florida, onde vende terrenos, casas e oferece uma série de vantagens. Ia esquecendo que Chips é California Higway Patrol, que foi imortalizada num seriado que teve 139 episódios e passou durante anos no Brasil, marcando a vida de muita gente que hoje é adulta.

Havia uma longa jornada pela frente e logo estava no estado do Arizona com seus cactos, desertos e uma paisagem de desolação. Ao olhar para o deserto interminável fiquei imaginando que é em paisagens inóspitas como estas que nossos patrícios arriscam a vida para ter uma vida melhor, em alguns lugares à beira da estrada era possível ver placas alertando para o perigo das serpentes venenosas e outros animais peçonhentos. O telefone toca e alguém informa que em Boston já cai a primeira neve com chuva; já a temperatura lá era quente e nem parece que estamos no inverno. Polícia? Nem sinal. E como não há árvores ou placas, onde eles possam estar escondidos a espreita de algum apressadinho, concluo que eles devem estar ocupados com outras coisas. O deserto é vencido e logo entramos no estado de New Mexico, com suas montanhas e pedras vermelhas. Este é o estado de onde saiu a maioria dos soldados do pelotão Navajo Talkers. Mas, já são sete e meia da noite e na estrada sumiu todo mundo, e antes que os hotéis lotem e os perigos da noite cheguem paro em Gallup, para dormir.

Todos os direitos reservado ao autor – outubro/2005.

Impressões de uma viagem – parte 2

In Cotidiano on June 8, 2009 at 4:32 am

Jehozadak Pereira

A estrada interminável foi sendo superada aos poucos. A infra-estrutura é muito boa e sempre há bons postos de gasolina – mais barata que na região de Boston, hotéis, restaurantes – sempre há uma loja de fast food – para matar a fome, e a medida em que se vai avançando o preços vão subindo assustadoramente. No Arizona e New Mexico, a impressão que se tem é a de que a maioria dos carros velhos dos Estados Unidos estão lá, assim como as paisagens – parece que literalmente o último filme de Hollywood foi filmado naqueles lugares e os cenários ficaram lá.

A presença indígena é marcante e é comum ser atendido nos hotéis, bares, restaurants e postos de gasolina por legítimos índios. Passa-se por cidades muito bonitas e por outras que são caóticas como Albuquerque em New Mexico – há quem diga que é um verdadeiro buraco, e parece ser mesmo. Faltou tempo para ir visitar a Petrified Forest National Park, a Meteor Crater e o Grand Canyon. Uma pena.

Ao entrar no Texas uma desagrádavel surpresa – uma multa por estar algumas milhas acima do limite, e sem apelação. Duro mesmo foi entender o que dizia o policial texano, a partir daí acabou-se o sossego, pois era um olho no velocidade e outro na viaturas policiais todas devidamente escondidas e prontas para reprimir qualquer engraçadinho, e o que não faltava era engraçadinho com o pé pesado sendo autuados.

Em Saint Louis no Missouri uma das mais bonitas cidades do caminho. Um arco – Gateway Arch – um imenso monumento de aço e concreto com altura equivalente a um prédio de 65 andares, e que marca a entrada do Oeste americano.

De Saint Louis partiram muitas caravanas de pioneiros que desbravaram o Oeste, tal como vemos nos filmes de faroeste. O Gateway Arch – dá as boas vindas a quem chega e homenageia quem parte, principalmente quem vai rumo ao desconhecido. Significa também a junção do velho com o novo, do antigo e do moderno e do conhecido com o desconhecido.

São lindas fazendas e paisagens que parecem ter sidos desenhadas por um artista e colocadas na terra para ornamentar e embelezar. O outono deixa ainda mais bonito tudo com as folhas ora vermelhas, ora amarelas, mas o clima ainda não é ainda de outono.

Anda-se já pela 90 que vai até Massachusetts. Interessante é notar que o lendária rota 66 cruza e parece se interligar com este caminho o tempo todo. Para quem não sabe a rota 66 foi cenário de Easy Rider – Sem Destino, o famoso filme estrelado por Peter Fonda e Dennis Hoper, dois motoqueiros muito loucos e drogados, que desafiam todos os perigos da estrada em busca de uma partida de droga.

Tudo na região é voltado para a mística 66. Na entrada de Illinois uma placa indica que é possível ir a Milwaukee no Wisconsin – Land of the Harley-Davidson. Quem nunca pensou em ter uma?

Convive-se com a história o tempo todo e lamento não ter tempo para explorar cada um destes pontos, pois faria da viagem uma oportunidade mais inesquecível ainda. Enquanto isto na estrada gigantescos caminhões transportam o progresso o tempo todo. E o meu destino está cada vez mais próximo, embora faltem ainda muitas milhas.

Logo estamos em Ohio, e Cleveland me faz lembrar de que ali é o lugar onde mais se fazem cirúrgias cardíacas no mundo todo, espero que nunca precisemos ir lá um dia, a não ser, claro para passear e ir embora rapidinho. Vai que alguma válvula falhe…, é melhor não abusar.

Finalmente o último dia da viagem e chegamos à Pennsylvania e suas paragens cada vez mais belas e que inspiraram e inspiram muitos apaixonados. Vale a pena ir lá um dia, principalmente no outono. Entramos na região vinícola, que dizem ter os melhores vinhos do lugar, que termina em New York State, e seus pedágios caríssimos. Um horror. Aí estamos perto do Canada e o trânsito – embora estejamos a quase 500 milhas de New York City, é um horror.

Na hora que o cansaço bate uma parada estratética para esticar as pernas, reabastecer, comer e pegar a 90 de novo.

A conclusão é a de que os Estados Unidos é lindo. Lindo mesmo. Agora só me falta ir ao estado de Washington e descer de carro rumo ao Idaho, Montana, Utah, Colorado, Wyoming e desta vez ir na Petrified Forest. Mas isto é assunto para outra viagem, que desta eu quero descansar por um bom tempo.

Já ia esquecendo do Navajo Talkers. Na Segunda Guerra, um estrategista militar dos Estados Unidos sugeriu uma brigada de comunicadores indígenas que falariam no seu idioma e com isto enganar os inimigos que interceptavam as comunicações. Bem, se você quiser saber mais assista o filme que é uma lição de coragem e destemor. Logo que dê uma folga eu vou assistir de novo, principalmente depois que estive em Gallup no New Mexico, onde moram alguns dos remanescentes do pelotão, que é o maior orgulho do lugar.

Todos os direitos reservados ao autor – outubro/2005.

TV Globo e o imigrante. Nada a ver

In Opinião on February 7, 2008 at 9:45 pm

Jehozadak Pereira

O Jornal Nacional veiculou na segunda-feira, 28 uma matéria sobre brasileiros que estão abandonando tudo e voltando para a casa. Até aí não há novidade nenhuma, pois todos os dias tem-se notícia de que milhares de brasileiros estão voltando para o Brasil levando na bagagem um pouco do que amealharam no período em que viveram na América, além dos sonhos e frustrações por não terem conseguido alcançar aquilo que desejavam plenamente.

Só que gente voltando para casa nunca foi novidade para a comunidade brasileira nos Estados Unidos. Então qual é a diferença desta vez? É que nunca os meios de comunicação deram tanto ênfase e cobertura para o assunto. Ou talvez, nunca tantos tenham voltado ao mesmo tempo.

Mas há sim, os exageros de sempre. E a matéria é pródiga em exageros, pois ao se editar os textos, carregou-se nas tintas pessimistas, teimando em dizer que todos estão indo embora. Todos não. Alguns é possível que sim. Há também um fator que não é levado em consideração, de que somos aproximadamente 1,2 milhão de pessoas. Quantos estão indo embora? 10 mil? 20 mil?

Que impacto isto tem na vida de quem fica? E a migração interna de brasileiros? Há alguns anos, milhares de trabalhadores foram para o sudoeste da Florida, na região de Fort Myers, Naples, Tampa e outras cidades. Segundo diziam, havia muito trabalho na área da construção civil e embora os salários fossem menores, o custo de vida também era menor, o que possibilitava uma vida sem maiores problemas, sem contar que nesta região há sol quase que o ano inteiro. Há as migrações para a Georgia, para a California e outros estados em menor escala.

Muitos disseram que jamais voltariam para as regiões frias e saturadas de brasileiros no norte. Passados alguns anos, não só voltaram, como tentam refazer as suas vidas, pois já não há mais trabalho na construção civil, que diga-se, chegou primeiro por lá. Um dos grandes problemas causados pela chegada de muita gente nesta região por exemplo, foi a queda dos salários, pois a mão de obra era farta e com isto os salários caíram.

È certo que alguns quando vieram para cá, o fizeram na incerteza do que de fato encontrariam em terras americanas, pois por mais que se diga que a vida aqui é dura e as vezes complicada, não se consegue transmitir o quanto para quem deseja vir. Há também a desilusão dos que já estão aqui há algum tempo que ao verem o tempo passar sem conseguir muitas coisas decidem pela volta.

Há uma teoria de que esta se voltando para o Brasil, porque o dólar se desvalorizou em relação ao real, e a pergunta que se faz é até quando a política monetária brasileira conseguirá manter as coisas neste patamar? Já vimos este filme antes e o final dele não é dos mais felizes não.

A falta de documentos é um agravante, mas não é o único, pois sempre se viveu na América desde sempre sem documentos e basta conversar um pouco com os mais antigos para se ter a noção exata das dificuldades enfrentadas por eles.

A realidade é que grande parte dos imigrantes brasileiros nunca foram lá muito fiéis a nada por aqui. Basta conversar com alguns líderes religiosos para se ter a noção exata disto. Hoje a pessoa congrega aqui numa igreja e amanhã estará em outra, e depois de amanhã noutra. Com o comércio é a mesma coisa. Não há garantia nenhuma de que o cliente de hoje será o mesmo de amanhã.

A crise por aqui vai passar, como já passaram todas as anteriores, e o negócio è esperar por dias melhores que virão sem dúvida alguma. Mais uma vez a TV Globo presta um desserviço à comunidade brasileira ao veicular meias verdades, carregando nas tintas do exagero mais uma vez. Certamente a crise vai passar, como a Globo também…

Joshua Tree National Park

In Cotidiano on June 16, 2007 at 2:55 am

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Outro dia assisti no Discovery Channel um documentário feito no Joshua Tree National Park na California. Como estou de férias aqui, fui lá para conhecer pessoalmente. É longe mas vale a pena ir, e a impressão é que se está no meio do deserto – e estamos mesmo. Um calorão danado, e a lição de que tudo aquilo que nos leva e nos lembra o passado deve ser preservado. No lugar há vida selvagem, e muitas árvores como a da foto, que se chama Joshua Tree, que é a origem do nome do parque. (Para ver a foto grandona é só clicar em cima).