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Nelson Mandela

In Crônicas on January 24, 2008 at 5:50 am

Jehozadak Pereira 

Há homens e homens. Há homens que ao passar pela vida fizeram e fazem história. Nelson Mandela é um destes homens, cuja trajetória – e história – servem de exemplo para gerações inteiras.

O dia 11 de fevereiro de 1990 é histórico para a África do Sul. Neste dia, depois de quase 28 anos confinado numa prisão por sua militância no CNA – o Congresso Nacional Sul-Africano, partido político banido por lutar contra o Apartheid, o regime de segregação racial imposto pela minoria branca, Nelson Mandela, foi libertado.

Para as gerações nascidas depois da década de 60, Nelson Mandela, era apenas um nome e uma foto de um homem com o rosto crispado numa expressão que revelava dureza e rancor. Ao mantê-lo encarcerado apesar dos protestos das nações civilizadas, o governo de Pretória longe de transformá-lo num prisioneiro político, fez dele um prisioneiro de consciência política e um ícone para muitos cidadãos no mundo todo.

A temida e feroz polícia sul-africana poderia ter dado a Mandela mesmo fim que dera a Steve Biko, espancado até a morte no cárcere em dezembro de 1977. Você pode saber da história de Steve Biko assistindo Um grito de Liberdade, ou a tantos outros que matou sem piedade. No entanto, com Mandela as coisas seriam diferentes. Era impensável matá-lo, pois mesmo dentro da prisão a sua voz ressoava no mundo todo. O regime segregacionista havia transformado-o num prisioneiro, mas a humanidade tinha-o como um modelo de tenacidade que lutava pelas liberdades civis do seu povo.

Durante a sua sentença de prisão perpétua, Mandela teve muitas vezes a oferta de liberdade, mas ou eles libertavam todos – entre ele o atual presidente Tabo Mbeki, ou ele permaneceria preso junto com seus companheiros, era a sua resposta costumeira.

Isto constrangia os governantes, a ponto de eles tramarem colocar Mandela porta afora de qualquer jeito. Mas, Mandela resistia. E resistia por saber que isto trazia esperança para o seu povo. Sua porta voz era a sua então mulher Winnie Mandela, que junto com os seus filhos e advogados eram os únicos autorizados a visitá-lo durante os quase 28 anos de prisão.

Ao passo que Mandela se transformava no mais famoso prisioneiro do mundo, o governo aumentava a pressão contra a população negra, a despeito dos boicotes e sanções econômicas impostas ao regime. Nesta época os protestos e manifestações da população negra eram coibidos com pancadaria, tiros e com cachorros que eram treinados para matar negros, além da violência usada a exaustão.

Em 1989 com o início do governo de Frederik de Klerk, houve o reconhecimento de que reformas seriam inevitáveis para que o país não submergisse no caos e numa guerra civil, e em fevereiro de 1990 de Klerk, cancelou a proibição ao CNA, libertou Mandela e os seus companheiros dos longos anos de cárcere.

Quem esperava encontrar um Nelson Mandela ressentido ou rancoroso pelos anos na prisão, deparou-se com um homem alegre, sorridente e disposto a fazer algo em prol da maioria negra. Recebido como um herói pela multidão que cantava Mama África, o hino nacional, Mandela reafirmou perante a opinião pública mundial a imagem de estadista.

Ao receber o Prêmio Nobel da Paz em 1993 junto com Frederik de Klerk, Mandela abraçou o seu último carcereiro e fez com aquele gesto simbolizasse o perdão dos perseguidos aos seus perseguidores, e afirmou publicamente a sua amizade com de Klerk.

Em 1994 foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul, com 60% dos votos na primeira eleição democrática naquele país, cargo que ocupou até 1999.

Separou-se de Winnie Mandela, que havia protagonizado um escândalo que envolvia assassinato e casou-se com Graça Machel, viúva de Samora Machel, e dedicou-se a campanha contra o HIV/Aids, que afeta cerca de cinco milhões de sul-africanos.

Recentemente as vésperas de completar 86 anos, Madiba anuncia que vai deixar a vida pública e passar mais tempo com a família, os amigos, completar suas memórias, ler e dedicar-se a uma reflexão mais calma da vida.

“Minha agenda e minha atividades públicas, a partir de hoje, serão muito reduzidas”, disse Mandela durante um evento em Johannesburgo. “Acredito que as pessoas vão entender nossas considerações e nos dar a oportunidade de uma vida mais calma”, afirmou.

Com isto encerra-se um ciclo na vida de Nelson Mandela, que mesmo aprisionado durante quase três décadas, resolveu que não iria guardar rancores ou magoas dos seus algozes, e com isto deu uma lição importante de vida que nos serve de exemplo.

PS texto escrito em 12 de junho de 2005

I have a dream – Eu tenho um sonho

In Crônicas on January 20, 2008 at 8:12 pm

Jehozadak Pereira 

1 de dezembro de 1955, Montgomery, Alabama, Sul dos Estados Unidos. Rosa Parks dá sinal e embarca no ônibus que a levaria para casa depois de um dia exaustivo de trabalho. Como na parte de trás havia muita gente, Rosa sentou-se num dos bancos da frente do ônibus. Por causa disto o motorista pediu que ela se levantasse, embora ali houvesse muitos assentos vagos. Rosa recusou-se a levantar e o motorista chamou a polícia que a levou presa. Rosa Parks era mais uma das vítimas da lei de segregação racial que vigorava no Alabama. Rosa era uma negra.

Por conta da prisão de Rosa houve em Montgomery um boicote à companhia de transportes que durou mais de um ano e que pôs fim à discriminação nos transportes públicos. A frente dos protestos estava Martin Luther King Júnior, que pregava a não-violência como forma de protesto e modo de alcançar o que se desejava.

Martin Luther King Junior, esteve além do seu tempo e foi um batalhador incansável pela causa da integração racial e dos direitos dos negros nos Estados Unidos e seu desejo era uma sociedade americana justa e livre de preconceitos raciais. Era o pastor da Igreja Batista da Avenida Dexter, em Montgomery, Alabama, onde iniciou a sua cruzada pelos direitos civis das minorias.

Em 1956 sua casa foi explodida por uma bomba e uma multidão de negros enfurecidos formou-se em frente à casa, querendo fazer justiça com as próprias mãos aos que injustamente os perseguiam. King, usando sempre da sua política de não-violência, pediu que depusessem as armas e voltassem para suas casas, dizendo o que seria o seu lema: “Devemos responder ao ódio com amor“.

Por conta do seu ativismo e da sua liderança, King foi preso mais de dez vezes, algumas por motivos fúteis como excesso de velocidade, mas na realidade tudo era mero pretexto para o pressionar e fazer calar a sua voz.

Além de ser aprisionado, King era ameaçado de morte em cada lugar que ia, e dizia que se tivesse de morrer pela causa dos direitos civis, morreria. Em 1963 na célebre Marcha sobre Washington proferiu o discurso Eu Tenho um Sonho que serviria de marco definitivo para que os negros americanos conseguissem os seus direitos que eram tolhidos por leis segregacionistas e racistas.

Ao optar por não atacar pessoas e sim preceitos e preconceitos segregacionistas e raciais, King mostrou ao mundo que a igualdade era possível, ainda que instigada por ódios incompreensíveis e repugnantes.

Entre todos os prêmios e lauréis que ganhou, o mais importante deles foi o prêmio Nobel da Paz em 1965. Celebrado e respeitado por muitos e odiado por outros – “vergonha para todo o mundo” foi a expressão utilizada por racistas do Sul dos Estados Unidos na ocasião.

Sua cruzada em busca da igualdade foi interrompida em 4 de abril de 1968, com um tiro no rosto dado por um branco na cidade de Memphis no Tennessee. O silêncio da cerimônia fúnebre de King trouxe uma profunda reflexão ao povo americano e impôs ao mundo uma nova ordem na área dos direitos civis. Não se podia matar impunemente – por mais dura que fosse a pena, a morte de King não seria reparada – que buscava direitos iguais para iguais, ainda que diferentes por causa da cor da sua pele, não se podiam transformar um embate num combate.

Não se podia conter ou exterminar uma busca pacífica de igualdade com balas letais, pancadaria e intimidação. Martin Luther King Junior deixou um legado de respeito e de admiração que é seguido por muitos. Na sua sepultura estão gravadas as palavras que ele pronunciou na Marcha Sobre Washington:

 

“FREE AT LAST, FREE AT LAST;

THANK GOD ALMIGHTY

I’M FREE AT LAST!”

 

“Enfim livre, enfim livre! Graças a Deus Todo-Poderoso sou finalmente livre!”

Rosa Parks

In Comportamento on October 4, 2007 at 3:18 am

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Jehozadak Pereira

Nestes tempos bicudos onde neonazistas idiotas se infiltram em torcidas de futebol, e o presidente russo dá demonstração de racismo exacerbado, é sempre bom lembrar de Rosa Parks, que com obstinação derrotou o preconceito e a intolerância.

Nos anos 50, os negros sofriam com estas leis que impunham restrições a quase tudo, e viver uma vida normal era dificultoso. Bares, lojas e restaurantes não aceitavam a presença de negros em possibilidade alguma. Nos poucos locais que permitiam uma convivência entre brancos e negros, quando um branco entrava, o negro era obrigado a sair. Havia banheiros públicos para brancos e negros. A Ku-Klux-Klan atacava e martirizava impiedosamente, queimando casas e igrejas, espancando e espantando sob os olhares complacentes dos governantes.

Embora a escravidão tivesse sido abolida em setembro de 1862, os negros continuavam escravos de leis que lhes impunham um jugo pesado e sufocante. Suas casas ficavam em bairros às margens das cidades e raramente podiam aventurar-se sem o temor de serem capturados e presos, pois qualquer pretexto era motivo de irem parar nas cadeias dos Condados.

No dia 1º. de dezembro de 1955, Rosa Parks dá sinal e embarca no ônibus que a levaria para casa depois de um dia exaustivo de trabalho. Como na parte de trás, destinada aos negros, havia muita gente, Rosa sentou-se num dos bancos da frente do ônibus, exclusiva dos brancos. Por causa disso o motorista pediu que ela se levantasse, embora ali houvesse muitos assentos vagos. Rosa recusou-se a levantar, discutiu, e o motorista chamou a polícia que a levou presa.

A população negra de Montgomery, no Alabama, a cidade de Rosa Parks, iniciou um boicote às companhias de ônibus que durou 381 dias, causando um prejuízo de mais de U$ 1 milhão à época, até que, em novembro de 1956, a Suprema Corte declarou inconstitucional a lei de segregação racial dentro dos ônibus no Alabama. Este episódio vivido por Rosa Parks foi a partida de um movimento maior encabeçado pelo Reverendo Martin Luther King Junior, que tomou proporção nacional, fazendo de King, vencedor do prêmio Nobel da Paz em 1965. Muitos dizem que sem a sua ação no caso de Parks, King jamais alcançaria a notoriedade e sucesso na sua luta pelo fim da segregação racial, da forma como foi, e ele reconhecia isso.

Longe de ser uma oportunista, Rosa Parks teve a oportunidade de ficar conhecida como a mãe dos movimentos dos direitos civis, pois ao se recusar a continuar sendo discriminada, ela mostrou toda a sua inconformidade com aquela situação. O mundo, especialmente os negros americanos, deve, a Rosa Parks, um importante progresso de consciência política e humanitária. Em 1956 Rosa Parks impetrou ação contra o governo americano por discriminação, e sua vitória no processo foi um marco importante na história dos direitos civis americanos.

Muitas outras mulheres fizeram e fazem, no dia-a-dia, história com suas atitudes e seu comportamento, e mereceriam linhas e mais linhas contando suas vidas.

Alguns têm a mulher como o sexo frágil, mas qual homem que agüentaria um trabalho de parto? Mulheres são fortes por natureza e – à parte os movimentos feministas que querem direitos iguais para mulheres -, elas têm conquistado seus espaços seja no mercado de trabalho, seja na literatura, seja nas ciências e no cinema, entre outros postos importantes.

Muitos confundem as lágrimas fáceis de uma mulher como sinal de fraqueza ou falta de coragem, quando na realidade elas são a prova de que a mulher é emotiva, quando o homem é racionalismo puro, e para quem o choro é demonstração de fragilidade.

Numa entrevista em 1996, Rosa Parks afirmou que não achava direito e justo ser maltratada por quem quer que fosse e, naquela tarde de 1955, pensava que atitudes sua mãe e avó tomariam em seu lugar. Elas eram mulheres fortes e certamente se insurgiriam como ela o fez. Rosa tinha um histórico de recusas e humilhações na vida, pois diversas vezes tentara se registrar como eleitora e era sistematicamente recusada. Uma das suas afirmações era a de que se pagava o preço exigido para andar no ônibus, ela queria direitos iguais aos dos brancos, e não ser mais humilhada, como conta no livro Quiet Strength – Zondervam Publishing House, 1994.

Quando enfrentou o motorista branco do ônibus, Rosa Parks não chorou, olhou nos olhos dele e ele, envergonhando, desviou o olhar, preferindo chamar a polícia. Perguntada se faria de novo, ela singelamente respondeu que sim, e talvez antes, se tivesse tido a ousadia e a coragem de sua mãe e avó.

Rosa Parks morreu em 2005 aos 92 anos.

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