Jehozadak Pereira.com

Por que a vida tem que ser assim?

Posted on: March 19, 2007


Reminiscências

Meu irmão me telefonou tempos atrás para dizer que dois primos haviam morrido num espaço de quatro dias um do outro. Primeiro morreu o Antonio e dias depois a Marta. Há muito não os via. Coisa de mais de vinte e cinco anos. A lembrança que tenho do Antonio é de um jovem, lá com os seus dezenove ou vinte anos, lutando pelo seu espaço na sociedade, e tento puxar na memória a sua fisionomia.

Confesso que não lembro, por mais que me esforce para tanto. Embora, jovem, o Antonio já era avô. Já com a Marta, a coisa era diferente, mas nem tanto. Certamente não a via a mais de trinta anos, e a lembrança que tenho dela é de uma menina simpática e risonha, sempre brincalhona e satisfeita. Nunca mais a vi e mesmo que isto acontecesse teria dificuldade em reconhece-la adequadamente.

Assim certamente se dará com a maioria deles. As lembranças mútuas que temos uns dos outros, é a de crianças, para quem não havia tempo difícil, e que qualquer oportunidade de estar juntos, era festa na certa, mesmo que fosse em velórios.

Um dos pólos de aproximação, comunhão e convívio são os avós, e quando eles também morrem, tudo invariavelmente se desfaz. Há também os caminhos da vida, com cada um à medida que cresce e amadurece tomando o seu rumo, com interesses específicos que quase nunca são compartilhados.

As lembranças, que temos invariavelmente exclui o tempo implacável com cada um de nós. Por isso, é que nos surpreendemos, quando nos encontramos e vemos diante de nós senhores e senhoras, e mais ainda, estamos diante de estranhos, cujas vidas não nos diz respeito em absoluto.

A morte tem o condão de nos levar a reflexão profunda, ainda mais quando se trata de pessoas no exercício pleno da maturidade. O Antonio tinha 44 e a Marta 42 anos. E pior quando país tem de enterrar seus filhos – devia haver uma lei natural que impedisse país de enterrarem seus filhos. Logicamente isto não é possível, e sim uma utopia.

Em setembro de 2004, perdi meu irmão, Jairo, aos 40 anos, depois de uma longa enfermidade, e além da saudade que fica, há também o desapontamento de não ter feito nada que me aproximasse mais ainda dele.

Desapontamento, porque a vida nos leva para longe de quem amamos, queremos, prezamos, e muitas vezes não nos permite aproximarmos nunca mais.

Nos preocupamos muitas das vezes com nossos pais, e o restante da família fica relegado a planos secundários, que os muitos afazeres diários de encarregam de colocar estes interesses em planos longínquos e intangíveis.

Quando meu irmão morreu, fiquei pensando nas vezes em que nos falamos, e, sobretudo, nas oportunidades em que não conversamos. Sem dúvida nenhuma perdi com isto.
Tempos atrás escrevi a crônica Liguei pra dizer que te amo, em cima de uma história que presenciei.
– Alô pai.
– Oi filha. Você precisa de alguma coisa?
– Não, pai. Liguei para dizer que te amo e que você é importante para minha vida.
– Quero que você saiba disto!

Outro dia ouvi esta história e me emocionei junto com a protagonista dela. Pensei logo no meu pai, e nas tantas vezes que telefonei para ele e não disse que o amo. Não me sai da cabeça que gestos tão simples e singelos fazem bem para as pessoas – especialmente pais e mães que estão do outro lado do telefone. Sempre haverá um tempo em que todos nós poderemos dizer aos nossos pais e a quem prezamos que os amamos…

Muitos de nós ao partirmos dos nossos cantos, deixamos para trás nossas histórias de vida e temos de refazer tudo de novo. Já passou por isto? Ou ainda daquele seu amigo dileto ou amiga querida que ficou ou já morreu? Eu tive um amigo assim, que morreu. Quando nos conhecemos, as afinidades eram poucas, mas a paixão pelo Palmeiras, a mesma visão da vida e os problemas em comum trataram de estreitar e iniciar uma amizade que durou anos.

Nossas conversas duravam horas e dias a fio. Um assunto nunca se esgotava no mesmo dia e invariavelmente continuava no dia seguinte. Partilhávamos as caronas. Ele no meu jornal e eu no seu carro ao final de cada dia.

Aprendi muito com meu amigo, e um dia ele disse o mesmo para mim, embora a nossa diferença de anos fosse considerável. Aprendi com ele a ler mais e seletivamente, a dar valor ao profissionalismo, a fazer as coisas de modo que não tivesse de refazê-las de modo algum. Uma das suas frases prediletas era a de que se algo fosse bem feito, o seria para a vida toda.

Relembrei com ele uma coisa que meu pai sempre me disse – a de que se preciso recuar e pedir desculpas, não era vergonha alguma, e sim uma virtude do caráter.

Como o passar do tempo ele deixou de ser meu superior para ser de fato meu amigo, e vi que um amigo nunca adula, e sim, fala a verdade o tempo todo, mesmo que esta verdade doa, e se doer é relevada, pois de um amigo às vezes suportamos o jugo. Outro dia ouvi, uma coisa interessante numa palestra da Ludmila Ferber.

Amigo é aquele que come um quilo de sal junto com você e não reclama. Uma verdade que já ouvira no passado, e que a mente se encarregara de jogar e deixar escondida num canto qualquer do inconsciente.

Algumas vezes este amigo comeu junto comigo uma porção de sal, e eu tive a oportunidade de fazer o mesmo com ele. E se precisasse faríamos o mesmo novamente. Muitos são solitários por não ter de fato um amigo ou amiga com quem partilhar as coisas do espírito e da alma, às vezes tão atribuladas com as circunstâncias que nos cercam.

Sem contar que cortamos deliberadamente as nossas raízes e nos esquecemos dos pequenos gestos que só uma amizade sincera pode proporcionar.

Pais, irmãos, maridos e mulheres, filhos, cunhados e cunhadas, primos, enfim todos aqueles que unidos a nós por laços familiares ou de amizade, e que por qualquer motivo deixamos de privar da companhia e com quem passamos anos sem trocar uma palavra sequer. Ou fazemos isto, ou então vamos sempre nos perguntar, por que a vida tem de ser assim…

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1 Response to "Por que a vida tem que ser assim?"

estou feliz por vc

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