Jehozadak Pereira.com

Aborto

Posted on: May 28, 2007


Maria Odete, a Detinha, chegou aos Estados Unidos em agosto de 2004, depois de fazer uma travessia tensa e exaustiva pela fronteira mexicana, e trazia além da expectativa de refazer a vida, as saudades dos três filhos – com idades entre os seis e os dois anos de idade – que ficaram com sua mãe. Veio para trabalhar e além de tudo havia a dívida de US$ 10 mil referentes a viagem. Era trabalhar e trabalhar para pagar as contas. Ajudada por sua irmã e por uma amiga logo conseguiu um trabalho num restaurante e um outro num nursing home.

Vivera com Almir por quase dez anos sem casar, até que depois do nascimento do filho caçula ele mudou o comportamento passando a bater nela e decidiu que viria embora para os Estados Unidos, como fizera seus irmãos e primos. Desde que ele veio em fevereiro de 2003 nunca mais tivera notícias dele. E nem queria saber, pois ele a havia maltratado. Numa das folgas, Detinha foi com Mara, sua colega de trabalho num baile e conheceu Jorge, um goiano de Catalão e que era primo de Mara. Dançaram, conversaram e depois do baile foi passar a noite com Jorge num motel. E nunca mais o viu. Um teste de gravidez comprado na loja brasileira confirmou as suas suspeitas e a deixou em pânico.

Grávida, quando precisava trabalhar para pagar as suas contas; mandar dinheiro para sua mãe e pior ainda – grávida de um homem que sequer ela lembrava a fisionomia direito. Detinha sabia que vacilara ao não usar preservativo, mas ela nem sequer lembrou disto naquela hora. Procurou Jorge, e decidiram que a solução era ela abortar.

Dias depois Jorge levou-a a uma clínica pela manhã e na hora do almoço ela já havia feito o aborto, depois disto nunca mais o viu. Passado mais de um ano do aborto, Detinha às vezes chora ao lembrar da gravidez abortada e padece porque não tem ninguém para conversar sobre o assunto.

O dilema de Detinha é o mesmo de milhões de mulheres ao redor do mundo que um dia tiveram de passar por um situação semelhante. Antes de ser um debate legal – permissão ou proibição da prática – é um princípio ético que muitas mulheres relutam em fazer ou fazem sem nenhuma culpa. Para muitas mulheres interromper a gravidez é a única saída viável, mesmo que isto traga graves conseqüências psicológicas, físicas e emocionais futuramente.

Desde quando um feto é considerado um ser humano? É em cima disto que o debate ético-moral tem início e tende permanecer sem resposta por longo tempo. Quando o estado chamou para sí a responsabilidade de decidir – e permitir ou não – se uma mãe tem o direito legal – mas não moral – de abortar, o fez na contra mão da história.

Até a metade do século 19 o aborto não era considerado illegal em grande parte do mundo. A partir da segunda metade do mesmo século, defensores da proibição conseguiram que leis anti-aborto, tornassem crime a prática, pois consideravam que um feto é um ser humano a partir da concepção, dai considerar a interrupção intencional da gravidez uma forma de homicídio.

Com isto, todo o argumento clínico perdeu força, e o ponto central da questão passou a ser o valor moral da vida do feto, tirando da mãe a decisão de fazer ou não o aborto. O assunto sempre provocou – muita – polêmica, especialmente nos Estados Unidos onde o Colorado foi primeiro estado a aprovar o aborto em 1967, e metade dos estados americanos fizeram a mesma coisa até 1970, com restrições importantes – até determinado estágio da gestação, em geral até o terceiro mês. O primeiro estado a legalizar o aborto até o quinto mês e a pedido foi New York, o que provocou uma corrida de mulheres às clínicas do estado.

A nível federal foi legalizado em 1973, e desde então não há um ano em que nåo tenha sido bombardeado por grupos conservadores, especialmente católicos e evangélicos, que vêem na prática um atentado à vida.

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1 Response to "Aborto"

Homens já disseram que uma semente é uma floresta, mas acham que um feto não é nada, enquanto não nascer…

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