Jehozadak Pereira.com

Ossos podres. Sintomas do invejoso – parte 2

Posted on: June 14, 2007


Para os trabalhos que fossem feitos em conjunto ou em grupo, um sorteio determinaria quem seria o sorteado que teria direito à bolsa de estudos, esta era a regra pré-estabelecida. Em outros cursos da faculdade a mesma atitude havia sido tomada.

Na ocasião Fabrício abateu-se e levou meses para se recuperar. Depois daquilo nunca mais foi o mesmo. Deixou de lado o sorriso fácil e sincero para se transformar num homem triste e por vezes amargurado. Muitas vezes deixou de ir trabalhar por ter bebido na véspera e outras vezes deixava o trabalho no meio do dia para ir beber. Esta crise durou quase todo o período em que Alceu estivera fora, e quando esse voltou encontrou Fabrício aparentemente recuperado.

O convívio deles neste período de um ano desde a volta até a morte de Alceu fora de muito trabalho e sem nenhum incidente grave. A exceção foi a festa de aniversário de um dos filhos de Alceu que Fabrício deixou de ir.

Ao convocar Fabrício para depor novamente o delegado fez-lhe as mesmas perguntas da primeira vez, e acrescentou novas questões, desta feita acerca do sorteio e da sua reação à época. Fabrício gaguejou e perguntou se estava detido, e se podia ter a presença de seus advogados.

Finalmente o assassino havia sido descoberto.

Ele havia mandado matar o primo por causa da inveja e de ciúmes. Sentira-se ultrajado e diminuído na ocasião do sorteio. Era ele quem deveria ter ido. Era ele quem deveria ter sido contemplado. Mas não, fora Alceu, e isto ele não podia perdoar. Durante meses ele tramou a morte de Alceu. Decidiu que iria mandar matá-lo, quando voltasse. Não iria perdoar. Faria a coisa perfeita, faria a coisa de modo a não ser incriminado. Planejou cada detalhe, e durante meses buscou quem pudesse executar o crime. Um ex-policial militar foi contratado e matou Alceu. Vinte dias depois do crime o assassino foi morto numa emboscada por justiceiros. Fabrício pensou que estaria impune definitivamente.

Friamente ele contou ao delegado a história, e como durante todo o tempo alimentou ódio e rancor contra seu primo, narrou como havia dias em que não conseguia se levantar para trabalhar. Mas quando pensava na vingança e de como mataria Alceu, animava-se novamente. Disse uma frase que demonstrou toda a sua frieza – que muitas vezes sentia os seus ossos como que ardendo, queimando, e seu único pensamento quando isto acontecia era o de que o seu “desafeto” morreria.

Deu detalhes de como premeditou a morte de Alceu, e para surpresa do delegado, do escrivão e dos advogados afirmou que faria tudo novamente. Disse ainda que se pudesse matar Alceu dez vezes o faria.

O delegado em mais de vinte anos de profissão jamais vira um caso tão chocante quanto este. Fabrício, mesmo depois de ter mandado matar o seu parente ainda destilava ódio e rancor. O seu olhar era frio e impiedoso. O avô de ambos precisou ser internado com um princípio de enfarte, e a família precisou de anos para se recuperar do ocorrido.

Fabrício foi condenado a vinte anos de prisão e tempos depois, foi morto a golpes de estilete na cadeia onde cumpria pena durante uma rebelião.

Quantos casos semelhantes ao de Alceu e Fabrício se repetiram ao longo da história? Quantos alimentam ódio e rancor mortal por causa da inveja?

O invejoso quer ser o outro, quer ter as coisas do outro, quer possuir o que por direito não lhe pertence, o próximo passo seguinte a inveja é o ressentimento. O ressentimento vai envenenar a alma do indivíduo, de modo que se ele não dominar os seus impulsos, passará a ter desejos de vingança, pois se sentirá ultrajado e infamado na sua personalidade.

O invejoso não se forma de uma hora para outra. Ele vai desenvolvendo a peçonha da inveja ao longo dos anos. A inveja pode estar adormecida no seu interior. O invejoso pode ver qualquer um como seu inimigo pessoal. Pode ser o vizinho que acabou de comprar um carro novo, pode ser o colega de trabalho que recebeu uma promoção, pode ser o amigo que recebeu um elogio, que ele julga ser merecedor. Por vezes o invejoso está tão preocupado com o outro, que ele julga seu oponente que acaba desperdiçando oportunidades, que poderiam fazê-lo crescer e realizar as suas ambições.

O invejoso sempre vai achar que o culpado pelo seu fracasso pessoal é o sucesso alheio.

O invejoso é carente, dependente e invariavelmente deixa de lado a personalidade tímida para assumir uma máscara de arrogância e prepotência que não vai deixá-lo sair do buraco em que se encontra.

A inveja é um sentimento singular. Na inveja não há pluralidade. O invejoso é furtivo, e nunca vai partilhar o seu (mau) sentimento com ninguém. A inveja é considerada “um mal secreto”. A inveja é uma velha dama indigna, de má reputação e péssimo caráter, sorrateira, capaz de com um simples olhar, murchar plantas e secar pimenteiras.

São Tomás de Aquino abordou a inveja – “tristina de alienis bonnis” – ou seja, ela tem em sua composição a tristeza em relação às coisas boas dos outros. Esse sentimento a contemplação da felicidade alheia destaca. É um sentimento que não mostra a cara, porém destila veneno, fala com maldade disfarça, escamoteia e é traiçoeira.

Não há inveja “boa”. Todo sentimento de inveja é mau e pernicioso. O dicionário Aurélio define a inveja como um desgosto ou pesar pelo bem alheio; desejo de possuir o que o outro tem. O invejoso constantemente se pergunta por que o mundo foi tão “injusto” com ele? Afinal quem merecia as “coisas”, dons, características que o outro possui é ele.

Freqüentemente o invejoso pensa que o outro achou a verdadeira fórmula e receita de felicidade, e que ambas deveriam ser passadas para ele também.

O invejoso chega a conclusão que lhe falta algo. Que há um “vazio” na sua vida, há um buraco que deve ser preenchido com algo.

Este algo é o que o outro tem. É o que o invejoso vai perseguir. Este é o sintoma que ele sente, e que só vai ser suprido se ele se curvar aos pés do Senhor.

* Os nomes são fictícios, baseados em fato real.

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