Jehozadak Pereira.com

Pais reféns – parte 1

Posted on: July 5, 2007


Crianças que não conhecem limites tendem a tornar-se ditadores e tiranos

Você pai e mãe são reféns do seu filho? Como? Por que? De que modo você pode se tornar refém do seu filho? Será que ele vai te seqüestrar e pedir resgate para os seus parentes?

Certamente que não, ele não vai fazer isto de modo algum, mas observe nele algumas práticas e modos. Veja se o seu filho sabe os limites dele. Quem deve ensiná-lo? Certamente você é quem deve ensinar ao seu pequeno o que ele pode e o que ele não pode fazer.

Crianças que não conhecem limites tendem a tornar-se ditadores e tiranos. Se seu filho enfrenta qualquer contrariedade com gritos e com espalhafato, é birrento e agride fisicamente ou com palavras quem não faz o que ele deseja, é um desafio que não pode ser simplesmente contido. Isto é falta de limites, e, sobretudo, de educação e disciplina adequada. É o resultado da falta de imposição de limites aos filhos para que eles convivam socialmente com outras pessoas. Normalmente filhos assim, nunca foram ouvidos pelos seus pais, que além de não os escutar, deixam de ensinar-lhes normas de comportamento. Falta diálogo, e por faltar à conversa franca e objetiva, os pais têm medo de falar não para os filhos. Há pais que não escutam, e não vêem a revolta dos seus filhos, e muitas vezes a revolta, a arrogância e a tirania podem ser um grito de socorro da criança em busca de espaço e atenção na vida dos pais.

Tive uma infância razoavelmente boa. Meus pais lutaram com dificuldades a vida toda, somos seis irmãos, e jamais nos faltou o alimento ou roupas. Todos estudávamos e era uma obrigação nossa partilharmos os deveres da casa; pois minha mãe trabalhava fora alguns dias da semana, e foram incontáveis as louças lavadas por mim e meus irmãos.

Jamais estávamos desocupados, sempre havia algo a ser feito. Desobedecer a pai ou mãe, principalmente meu pai era uma atitude de altíssimo risco, e lembro-me de cada uma das surras que levei – e mereci-as todas, a exceção de uma única vez. Alguns dos meus irmãos arrumaram uma confusão entre eles e ao ouvir o barulho, meu pai entrou no quarto com um cinto de couro nas mãos e eu fui o primeiro a apanhar. Foi a única vez que me revoltei contra meu pai e o inquiri – por que o senhor me bateu, se eu não tenho nada a ver com a briga deles? A resposta do meu pai me provoca risos até hoje – você não fez nada agora, mas vai fazer, por isso você já apanhou antecipadamente.

Quando relembro com meu pai esta e outras histórias da minha infância não posso deixar de ver que embora rude comigo, foi o cuidado dele em me disciplinar que me livrou de muitas situações de perigo ao longo da vida.

Minha mãe cuidava para que não andássemos em companhias desagradáveis ou problemáticas – ela dizia uma frase que nunca esqueço – problemas, bastam os nossos. Se passássemos um pouco da hora de chegar do trabalho ou da escola, as perguntas eram muitas – onde vocês estavam? Com quem vocês estavam? O que vocês estavam fazendo?

E ela sabia quando algum de nós queria enganá-la, e ai era correção na certa. Minha mãe era mais esperta do que nós todos juntos.

Meu pai falava uma única vez, e quando não podia verbalizar somente olhava e eu podia saber que seria disciplinado independentemente de aviso, circunstância, local, presença de outras pessoas. Meu pai partilhava da filosofia que se alguém tinha de ser envergonhado este alguém era o desobediente. E ele estava certo. Entre o grito e a disciplina, meu pai optava sempre pela última, e como dava resultado.

Hoje, vejo quantos pais que preservam seus filhos diante de todos, e são constantemente envergonhados por eles. Filho desobediente e mal criado é embaraço para seu pai e mãe. Uma das piores invenções do mundo moderno e dos dias em que vivemos, é a de que crianças não podem ser disciplinadas. Colocar um filho de castigo pode ser “traumático” para ele. Mentira!

Deixar de disciplinar um filho é uma afronta à ordem bíblica. E muitos pais afrontam e desobedecem a Bíblia ao não disciplinar seus filhos devidamente. Pergunte a qualquer terapeuta que lida com crianças, adolescentes e jovens e não se surpreenda com as respostas deles – grande parte deste contingente que freqüentam os consultórios deles são de gente que carece de disciplina e de atenção materna e paterna.

Tempos atrás eu recebi um e-mail de uma mãe desesperada. A mulher pedia conselhos de como tratar a sua filha adolescente – rebelde, segundo ela – que certo dia ameaçou pular da sacada do prédio onde elas moravam. Respondi-lhe, dizendo que queria saber o histórico de vida das duas, relacionamento de mãe e filha, etc. A resposta veio rapidamente. A mulher que era separada do marido, havia se convertido há pouco mais de três anos, e queria por força que a filha também se convertesse. Como a menina se recusasse, a mulher não a deixava sair com freqüência – ou ia para a igreja ou ficava em casa.

Logo, a mulher tornou-se conselheira e orientadora de um grupo de jovens que a igreja mantinha três vezes por semana, inclusive aos sábados à tarde, e assim lá ia a mãe – deixando a filha trancada dentro de casa – orientar jovens em crise. Um belo dia chamaram-na ao telefone e ela quase desmaiou de susto – a sua filha estava sentada na varanda com as pernas balançando no vazio, pronta para pular para a morte. Correria, gritos e desespero, e finalmente depois de algumas horas a menina voltou para dentro do apartamento, e ela lendo um dos artigos que eu havia escrito pedia orientação de como proceder.

De cara aconselhei-a que deixasse o grupo de jovens e se dedicasse somente a sua filha, desse atenção diuturnamente, que se tornasse amiga da sua filha e que não a forçasse a se converter, que orasse e mostrasse o quanto sua filha era importante para ela. Meses depois recebi um outro e-mail, dizendo que a menina havia se batizado, e que ambas trabalhavam juntas aconselhando outros jovens a encontrar a paz e a amizade com seus familiares.

Pensem que uma multidão de crianças, jovens e adolescentes como a menina, “gritam” pedindo por atenção e carinho, para ser ouvidos e atendidos nas suas necessidades emocionais básicas. Mas há, aquelas que reagem com desobediência e rebeldia à falta de atenção dos seus pais. Por outro lado, há pais que são relapsos e omissos, que não dão atenção devida aos seus filhos e por isso eles fazem gato e sapato dos seus pais.

Certa vez presenciei um pai com uma rispidez chocante humilhar seus filhos adolescentes diante de todos. Pensei que fosse uma atitude isolada, mas logo vi que cenas como aquela eram corriqueiras na vida daquela família. Passei então a “monitorar” os meninos e vi que eles por seu lado se vingavam do pai e da mãe com atitudes de pura indisciplina e rebeldia.

Um bebê não fala, mas sente dores, e uma das formas de verbalizar isto invariavelmente é chorar. E como choram nossos bebês. Ao nascer a primeira reação de muitos é chorar agudamente, e o primeiro choro pode ser um protesto ao desconforto a que a criança está sendo submetida. Imaginem, se qualquer um de nós ficássemos dois meses agachados, num espaço minúsculo, sem luz, sem contato nenhum com o mundo exterior? E após este período fossemos jogados de supetão na claridade e pudéssemos finalmente esticar as pernas e os braços. Certamente gritaríamos de dor, pois os nossos órgãos estariam acostumados a uma determinada posição, assim como nossos olhos à escuridão. Assim, são os bebês quando nascem.

No meu terceiro ano na faculdade, fui a Bienal de São Paulo, com a incumbência de analisar diversas obras de arte para fazer uma matéria de uma disciplina específica. Visitei durante aquele dia diversas obras, e nenhuma delas causou tanta angústia e sensação de fobia, quanto – A Casa é o Corpo – uma instalação onde é possível entrar, e que se tem à sensação de estar dentro de um útero, um trabalho de Lygia Clark. Eu não via a hora de sair dali.

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