Jehozadak Pereira.com

Filhos violentos – parte 1

Posted on: October 9, 2007


Jehozadak Pereira

– Cala a boca que eu te quebro a cara!

Com o dedo apontado para a cara da mãe, foi que Marcelo, 28 anos, 1,82 metros e físico talhado com muitas horas semanais na academia, gritou com Maria, sua mãe.

A reação de Maria, 1,65 metros, 52 anos e físico franzino, foi dar um safanão no dedo de Marcelo, que causou uma grave luxação. A seguir ela deu um soco no olho, outro no nariz e para finalizar deu um chute nas partes genitais de Marcelo. Com a gritaria de Marcelo, Carlos, o irmão mais velho, tirou de cima dele Maria que tinha nas mãos uma cadeira para continuar batendo em Marcelo.

Com o dedo fraturado; o olho inchado e o nariz quebrado; Marcelo jamais poderia esperar uma reação tão violenta e desmedida por parte de Maria, mesmo porque tem o dobro da força física da mulher. Levado ao hospital, o médico perguntou de quantos homens Marcelo havia apanhado. Surpreendeu-se ao saber que havia sido uma mulher franzina que fizera aquele estrago todo na mão e no rosto de Marcelo.

Maria e Marcelo são mãe e filho. A história é real e os nomes foram omitidos para a preservação da privacidade.

Nem sempre é assim, e casos como o de Maria e Marcelo não fazem parte das estatísticas oficiais de violência doméstica, que geralmente tabula e computa agressões e violência entre cônjuges e pais contra filhos. Uma quantidade enorme de pais apanha de seus filhos ao menor pretexto ou motivo.

Com medo de que a violência possa aumentar se os denunciarem, pais se calam e continuam apanhando e sendo agredidos impunemente. Afora a vergonha de ter de admitir para vizinhos, parentes e amigos que são agredidos fisicamente. O que leva um filho a se tornar agressor dos seus pais? Os motivos podem ser fúteis ou banais, e após a primeira vez que baterem, se não forem coibidos, baterão sempre e cada vez mais.

No caso de Marcelo, que sempre teve um relacionamento cordial com sua mãe, foi à recusa dela em pagar-lhe uma nova faculdade. Prodígio com números; Marcelo começou o estudar Matemática, parando no segundo ano, quando iniciou Biologia, que também abandonou no começo do quarto ano. Agora queria iniciar o curso de Economia, e diante da recusa da mãe em financiar-lhe a nova empreitada partiu para cima dela e se deu mal.

Longe de ser relapso ou um mau filho, sempre trabalhou para ajudar a mãe e o irmão, depois que o pai os abandonou atraído pelos encantos de uma mulher quinze anos mais nova que a mãe. Meses antes da discussão, Maria recebera uma grande soma em dinheiro proveniente de uma herança familiar e menos pelo dinheiro e sim pela indecisão de Marcelo, é que se recusava a financiar uma nova aventura escolar do filho.

Depois de muito discutirem e se estressarem mutuamente, Marcelo partiu para a agressão e teve o troco a altura.

Mas nem sempre é assim.

Depois que escrevi o artigo Os Caminhos da Juventude onde relato algumas práticas dos nossos jovens; um dos assuntos abordados foi o RPG. Como sempre, cada vez que contrario alguém, recebi um caminhão de mensagens desaforadas e que revelam bem a quantas andam determinadas vidas. No entanto, um e-mail chamou a minha atenção porque a mãe que me escreveu vive um drama dentro de casa. Com a autorização dela publico o e-mail, sem contudo identificá-la por motivos óbvios.

From:
Subject: Meu drama
Date: November 10, 2005 8:44:23 PM EST
To: contato@jehozadakpereira.com
Reply-To:

Nome: Antonia B.
E-mail:
Assunto: Desabafo
Telefone:
Mensagem: Jehozadak, meu nome é Antonia e moro numa capital do sul do país, e vivo um drama dentro de casa. Primeiro quero dizer que li sua matéria sobre o rpg, pois o Fabrício, meu filho de 18 anos estava lendo no computador e falava no telefone muito bravo contra voce. Ao ler o seu artigo pude me identificar com uma situação que vivencio dentro da minha casa há pelo menos 5 anos. O Fabrício, começou a jogar rpg aos 13 anos e desde então eu venho perdendo ele a cada dia. Meu marido é diretor de uma multinacional e não nos falta nada, e eu sou professora universitária. Desde que o Fabrício resolveu trocar as companhias do colégio por outras de outra turma ele ficou cada vez mais agressivo e outro dia chegou a me agredir fisicamente, depois de me xingar durante todos estes anos. O pai não pode com ele e também ele agride-o por causa do jogo e por causa de música que ele ouve numa altura incrível.

Desde que ele nos xinga, já estamos acostumados, mas no dia que ele agrediu o pai por causa dos amigos dele que são drogados e jogam rpg, ele disse pro pai dele que se precisar matar e morrer por este jogo ele mata e morre. Minha cunhada é psicologa, e nos orientou a buscar ajuda de um terapeuta.

Quando falamos que iamos levá-lo a esta terapeuta, ele ficou furioso e disse que não estava louco, e me agrediu com um fúria que jamais poderia imaginar. No hospital, eu disse que havia sido assaltada, pois me faltou coragem para dizer que tinha sido o meu próprio filho que tinha me agredido.

Quando meu irmão viu a situação que eu fiquei, reagiu contra ele, e disse que se ele me batesse de novo, ele iria conversar seriamente com o Fabrício. Só que ele reagiu contra o tio e disse que eu estava tentando afastá-lo do rpg, e que ele não iria tolerar isto, pois o jogo é a coisa mais importante da vida dele.

Sabe, Jehozadak, quando eu li sobre aqueles jovens que não tomam banho e tem hábitos pouco higiênicos, eu lembrei do Fabrício e dei risada, pois parece que você está falando do meu filho.

Criamos os nossos filhos com fortes valores morais, e mesmo não tendo religião, buscamos dar a eles noções de que existe algo superior, e que tão logo eles pudessem decidir pelo que quisessem seguir que o fizessem. Nossa filha mais velha se casou com um rabino e mora em Israel, e os outros não se decidiram no que querem crer.

A opção do Fabrício pelo misticismo não nos incomoda, o que incomoda é o modo com que ele nos trata, o seu fanatismo, e o profundo envolvimento dele com este jogo maldito que esta consumindo a vida dele.
Sinto-me profundamente abalada e humilhada por tudo isto que nos cerca, e tenho a certeza de que um dia terei meu filho de volta, pois hoje a cabeça, e vida e os ideiais dele estão totalmente voltados para demônios, violência, bruxos, feiticeitos, mestres, vampiros e sinceramente tenho medo de que um dia receba alguma noticia ruim envolvendo o Fabrício.

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