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Filhos. Amigos ou inimigos?

Posted on: December 11, 2007


Jehozadak Pereira

Certa vez eu falava para um grupo de jovens e citei que filhos devem honrar seus pais. Uma jovem muito bonita quase me pulou em cima de tanta raiva e ira. Ela disse aos gritos que eu dizia aquilo por que não conhecia seu pai. Bruto, mal educado, mau humorado, arrogante, violento, bêbado, alcoólatra, espancador dela, dos irmãos e da mãe. Coisas de chocar qualquer um.

Levei-a diante de todos a ler e refletir sobre o que está escrito em Êxodo 20.12. Fiz com que ela lesse na Bíblia dela a passagem reiteradas vezes. Então perguntei se ali havia alguma condição para que ela respeitasse e honrasse seu pai? Continuei perguntando se ela deveria respeitar e honrar seu pai se ele fosse respeitador, educado, cordato, gentil, que não tivesse quaisquer vícios? E ela foi respondendo não para todas as minha indagações. Logo ela pode entender onde eu queria chegar.

Não há nenhuma vírgula, senão, hiato, condição, reparo, desvio, nada, não há nada que diga que pai e mãe não devem ser honrados, independentemente da sua condição.

Pois bem, há pais e mães que são inimigos viscerais dos seus filhos, e igualmente há filhos que são inimigos figadais dos seus pais e mães. Eu conheço um monte deles.

E por que são inimigos? Os motivos são diversos e variados.

Covarde, trapaceiro, negligente e mentiroso. Foi exatamente com estas palavras que Guillaume Depardieu, definiu seu pai, o ator francês Gerard Depardieu. A inimizade de ambos é notória e beira muitas vezes o escárnio. Guillaume ataca o pai, por causa do desprezo deste na infância, e da indiferença com que foi tratado a vida toda pelo pai. Em 1996 Guillaume sofreu um grave acidente quando dirigia em alta velocidade uma motocicleta, e tempos depois teve de amputar a perna direita por causa de uma infecção hospitalar.

Gerard trata o filho como desequilibrado emocional, e este devolve o insulto xingando o pai pela imprensa.

Há inúmeros exemplos de pais e filhos que se odiavam uns aos outros. Jânio Quadros foi um dos que detestava seu pai. Quando Gabriel Quadros morreu assassinado por marido traído, Jânio sequer lamentou. A divergência de um com outro atravessou décadas de desprezo, indiferença e rancor.

Geralmente conflitos entre pais e filhos passam por uma educação deficiente e falha. Quando pequenos quem decide o que a criança vai comer, vestir, quando ir deitar-se, tomar banho, se pode fazer o quer, etc.

Nesta etapa de vida, não há conflitos, e os filhos vêem os pais como seus heróis e heroínas prediletos.
Porém, na adolescência surgirão os problemas. Os filhos passarão a ver os pais como eles são na realidade – pessoas falíveis, com problemas, com dificuldades diversas, quebrando um pouco daquele elã infantil que havia, e que mascarava certas situações.

Nesta situação, muitos pais não “toleram” perder o posto que pensavam desfrutar – e há pais que controlam absolutamente tudo dos seus filhos.

Gerações separam pais e filhos e os comportamentos destes tendem a desagradar os pais. É comum, ouvir certos pais dizendo – no meu tempo isto era diferente, repetindo assim aquilo que ouviram por sua vez dos seus pais.

Pais que não tolerarão as amizades, os gostos musicais, as leituras, as roupas, o modo de estudar, o comportamento e tudo o que se relaciona ao bem-estar dos filhos. Tentarão controlar a privacidade deles como indivíduos de cabeças – ainda que imaturas – pensantes. Hoje um adolescente tem muito mais opção de se divertir do que seus pais. Televisão, internet, livros, filmes são alguns dos recursos disponíveis para a educação e o conhecimento de muitos ainda que não estejam totalmente preparados para tal. Querem exercer um controle exagerado sobre os filhos, querem demonstrar força, quando deveriam mostrar coerência e inteligência.

Sem contar que os nossos dias são invariavelmente mais dificultosos do que os dias dos nossos pais. Há mais violência, a iniciação sexual e os perigos decorrentes dela são muito mais evidentes e notórios, pois adolescentes se iniciam sexualmente e muitos têm vidas ativas neste aspecto. Nunca se contraiu tanta doença sexualmente transmissível – a exemplo da AIDS, e drogas injetáveis como nos nossos dias.

Hoje um adolescente de quinze anos, sabe mais de sexo e da vida do que seus avós quando estes tinham trinta anos de vida. Uma única edição diária do jornal The New York Times, traz mais informação do que um homem podia assimilar durante um período de cinco anos, há três décadas atrás.

Os tempos mudaram, só que alguns pais não acompanharam estas mudanças, e falam uma linguagem diferente dos filhos. Nesta situação os conflitos familiares tendem a se acirrar, tornando a convivência insuportável. O pai gritará com o filho, a filha o responderá, e a mãe ao tentar intervir, para não ficar mal com nenhum dos lados fará com que as coisas se tornem ainda mais ruins do que já estão. O que mais se vê hoje em dia são adolescentes irritados com seus pais.

O que para os jovens é normal e compreensível, para os pais não é. O que uns toleram os outros não suportam. Nesta altura da vida, os filhos desejam ter amigos, sair, passear, ir ao cinema, viajar com quem partilha os mesmos interesses, e invariavelmente os pais estão numa outra dimensão frontalmente contrária a dos filhos.

É muito comum pais e filhos serem amigos depois de muitos anos. Primeiro porque os pais passam a ver a vida de outro modo, entendendo e aceitando as mudanças impostas pelo tempo, e depois porque os filhos ao se tornarem pais vão passar certamente pelos mesmos problemas que seus pais enfrentaram com eles. Eu mesmo, só fui entender muito das atitudes dos meus pais, no instante em que fui pai, e passei a enfrentar os mesmos problemas que eles haviam enfrentado comigo. Com o passar dos anos tornei-me amigo deles, mas precisei tomar uma lição que nunca vou esquecer.

Hoje uma das minhas maiores alegrias é poder falar com meus pais, e sinto a reciprocidade neles, orgulho-me de ser amigo deles, e não abro mão deste privilégio. Problemas de pais com filhos, não significam necessariamente passar por drogas, sexo, mau comportamento, portanto, fora do âmbito e da convivência familiar, para ser estritamente de ordem interna dos lares.

Meu pai conta que na sua infância, seu pai somente olhava para ele e seus irmãos, e isto era o suficiente para que todos eles entendessem o que queria dizer meu avô. Não se falava sem pedir licença, não se entrava, saia, ou se mexia em nada sem permissão. Se tivesse visitas em casa a prioridade era destes, havia a imposição rígida de uma disciplina que não dava abertura para que qualquer um deles fizesse o que desejasse.

Já a criação da minha mãe foi diferente da do meu pai, e nem por isso minha mãe e tios eram indisciplinados. Acho que meu avô materno nunca disciplinou fisicamente um filho, era um homem dócil e amigo dos filhos, assim como – ao seu jeito e modo, meu avô paterno.

Parte da minha infância foi passada sob estes métodos. Meu pai olhava e pelo jeito dele olhar já sabia de antemão o que iria acontecer. Para muitos este sistema é arcaico e ultrapassado. Não é não. Das coisas da minha criação que reclamo, foi a falta de diálogo, do resto não reclamo de nada. Com meus filhos apliquei muito das coisas que aprendi com meus pais, só que tinha por obrigação de melhorar aquilo que aprendi e recebi deles.

Aliás, nós temos a obrigação de melhorar a nossa história de vida e a herança que recebemos dos nossos pais. Se ela foi deficiente, temos o dever de educar nossos filhos de modo digno e diferente daquela que fomos educados. Se ela foi boa, nosso dever é aperfeiçoá-la de todos os modos.

O que nos resta então é tornarmo-nos amigos dos nossos filhos. Por maior que sejam as divergências e diferenças existentes entre uns e outros, nossa obrigação e dever é sermos amigos sempre uns dos outros.
Freqüentemente recebo e-mails de filhos reclamando dos seus pais. Falta de atenção, ausência de carinho, diálogo, indiferença e até desprezo são alguns dos itens que mais se queixam os filhos dos seus pais.

Conheci certa feita um rico empresário em São Paulo, que se gabava das atitudes dos seus filhos. Um deles certa vez foi viajar com mais dois amigos para a Itália, e lá por um motivo qualquer foi preso. Havia levado um cartão de crédito do pai escondido e havia sido pilhado falsificando a assinatura nos recibos das compras.

O que ele fez? Nada. Orgulhava-se disto. Eu já estava morando na América quando li nos jornais que o mesmo rapaz havia se envolvido num seqüestro de uma prima para tirar dinheiro do tio. Uma das perguntas que o delegado que o prendeu fez, foi o porque da atitude, visto que não havia necessidade daquilo.

Vingança pela falta de atenção do pai e da mãe, foi o motivo alegado.

Assim, muitos filhos estão ai a deriva vingando-se dos seus pais, tratando-os como inimigos mortais, quando deviam honrá-los e prezá-los. Do mesmo modo, pais que tratam seus filhos como rivais que somente venceram na vida por causa da ajuda deles, pais.

Quem é pai ou mãe, os amigos dos seus filhos? Vocês? Ou os amigos deles são os colegas de trabalho, de turma ou da escola? Seus diálogos são conversas agradáveis ou uma gritaria insana e inconseqüente? Seu filho só o procura nas horas de necessidades? Que tal ser amigos dos seus filhos ainda hoje?

Pensem nisso.

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1 Response to "Filhos. Amigos ou inimigos?"

Os dez mandamentos mandam que se “honre” aos pais e não que se “ame” ou se “goste” dos pais
Penso que deve ser muito bom quando o filho além de honrar, como manda os dez mandamentos, goste e ame seus pais.
Porém o ato de “gostar” e “amar” os pais é uma dádiva do filho pelo amor que recebeu de seus pais.
Amar o filho não é fazer o que ele quer e dar o que ele quer como muitos pais ricos fazem.
O maior problema que atualmente ocorre é o divórcio que afasta a comunhão total da família, são homens e mulheres que formam outra família
e por isso ocorre a desestrutura.
Também a falta de comunhão com Deus da parte da maioria dos pais.
No meu caso, minha mãe era cristã e meu pai não era cristão (mas também não era ateu) e isto gerava um desequilíbrio espiritual apesar de não haver brigas dentro de casa.
Mas eu e meus irmãos honramos nosso pai não cristão e honramos e amamos nossa mãe.
Porém não amamos o nosso pai, apenas o respeitávamos, inclusive, respeitávamos a sua omissão ao evangelho de Jesus Cristo, foi um direito dele escolher a omissão e não aceitação ao evangelho.

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