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Escrever é cortar palavras

Posted on: January 30, 2009


Jehozadak Pereira

Ganhei este texto de um dos meus professores na faculdade, e foi escrito pelo Armando Nogueira e publicado no Jornal do Brasil no dia 7 de agosto de 1996, mas é atualíssimo, e resolvi postar no dia do Jornalista como um lembrete importante.

Passei alguns anos certo de que o autor dessa preciosa máxima era Carlos Drummond de Andrade. Até que um dia perguntei ao poeta. Ele conhecia, mas negou que fosse dele. Confesso que fiquei desapontado. A sentença tinha a cara de mestre Drummond, cuja prosa é um exemplo de concisão. Otto Lara Resende desconfiava que pudesse ser de um escritor mexicano a idéia da dica preciosa. Eu, por mim, seria capaz de atribuí-la a John Ruskin, notável escritor e crítico inglês do século passado. Se não o disse, com todas as letras, certamente foi Ruskin quem melhor ilustrou o adágio, num conto antológico.

É o caso de um feirante de peixes num porto britânico. O homem chega à feira e lá encontra seu compadre, arrumando os peixes num imenso tabuleiro de madeira. Cumprimentam-se. O feirante está contente com o sucesso do seu modesto comércio. Entrou no negócio há poucos meses e já pode até comprar um quadro-negro para badalar seu produto. Atrás do balcão, num quadro-negro, está a mensagem, escrita a giz, em letras caprichadas: “Hoje, vendo peixe fresco.” Pergunta, então, ao amigo o compadre: Você acrescentaria mais alguma coisa? O compadre releu o anúncio. Discreto, elogiou a caligrafia.

Como o outro insistisse, resolveu questionar. Perguntou ao feirante: Você já notou que todo dia é sempre hoje? E acrescentou: Acho dispensável. Essa palavra está sobrando… O feirante aceitou a ponderação: apagou o advérbio. O anúncio ficou mais enxuto: “Vendo peixe fresco.” — Se o amigo me permite — tornou o visitante —, gostaria de saber se aqui nessa feira existe algum peixe dado de graça.

Que eu saiba, estamos numa feira, e feira é sinônimo de venda. Acho desnecessário o verbo. Se a banca fosse minha, sinceramente, eu apagaria o verbo. O anúncio encurtou ainda mais: “Peixe fresco” — Me diga uma coisa: por que apregoar que o peixe é fresco? O que traz o freguês a uma feira, no cais do porto, é a certeza de que todo peixe, aqui, é fresco. Não há no mundo uma feira livre que venda peixe congelado… E lá se foi também o adjetivo. Ficou o anúncio reduzido a uma singela palavra: “Peixe”.

Mas por pouco tempo. O compadre pondera que não deixa de ser menosprezo à inteligência da clientela anunciar, em letras garrafais, que o produto aqui exposto é peixe. Afinal, está na cara. Até mesmo um cego percebe, pelo cheiro, que o assunto, aqui, é pescado… O substantivo foi apagado. O anúncio sumiu. O quadro-negro também. O feirante vendeu tudo. Não sobrou nem a sardinha do gato. E ainda aprendeu uma preciosa lição: escrever é cortar palavras.

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