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A Comparação – A Inveja no Mundo Secular

Posted on: April 7, 2009


 Jehozadak Pereira  

A inveja só é exercida no tangível, ou seja, naquilo que se vê. Raramente alguém vai sentir inveja de quem está longe ou distante. Um homem sempre vai invejar outro homem, uma mulher sempre vai invejar outra mulher. Dificilmente um velho vai sentir inveja de um jovem, o mesmo já não acontece em relação à mulher.

Muitas vezes uma mulher velha tem inveja de uma jovem ou adolescente, porque vai ver nela uma rival em potencial. Logicamente há exceções. Um empresário vai sentir inveja de um outro empresário, um pedreiro vai sentir inveja de um igual, porque vai ver nele um concorrente no seu campo de ação.

Antonio Wilson Honório, foi o melhor companheiro de Edson Arantes do Nascimento. Ficaram conhecidos como Coutinho e Pelé e não Pelé e Coutinho. Jogaram no Santos Futebol Clube por dez anos. Juntos demoliram defesas adversárias, levaram os seus talentos pelos quatro cantos do mundo, por serem negros quando vistos à distância era impossível saber quem era quem. Coutinho encerrou a carreira aos 26 anos de idade por problemas nos joelhos. Pelé continuou a sua com êxitos e mais êxitos. Tempos depois, um melancólico Coutinho deu uma série de entrevistas dizendo que se não fosse ele, Pelé jamais teria chegado aonde chegou, acrescentou que se fosse naqueles dias ele deixaria de dar muitas bolas para que Pelé fizesse tantos gols. Uma vez, procurado para falar de um prêmio que Pelé havia ganhado, disse não ter nada a declarar. E sempre que pode dá demonstrações de desagrado quando o assunto é Pelé.

Nos anos 80, o atletismo americano tinha dois atletas de ponta. Um deles era Edwin Moses e o outro Carl Lewis. Atletas que competiam em modalidades diferentes no atletismo, foram supercampeões, Moses chegou a ganhar mais de 150 provas consecutivas. Mas Lewis não o tolerava, e em algumas provas do circuito internacional, impunha a sua participação ao não convite a Moses. Mesmo depois que Moses parou de competir, Lewis recusava-se a tocar no nome do “rival”.

Antonio Salieri foi um competente e respeitado compositor de mais de 40 óperas e teve como alunos, entre outros, Beethoven, Liszt e Schubert. Mas, alguma coisa não caminhou bem entre Salieri e Wolfgang Amadeus Mozart. Salieri, então começou a sua perseguição pessoal contra Mozart. Usou de calúnia junto ao círculo do poder imperial, difamou, infamou, empurrou para a miséria e envenenou o seu “desafeto” pessoal. A história de ambos foi pesquisada, analisada, estudada e ninguém conseguiu chegar a uma conclusão satisfatória do porquê Salieri perseguia Mozart. Mas o caso é um dos exemplos clássicos do que um invejoso pode fazer com o objeto do seu desejo.

Sandra por algum tempo recebeu ligações telefônicas dizendo que seu marido a traía com diversas mulheres. Que nas viagens profissionais do seu esposo – ele era um requisitado publicitário – sempre havia a companhia de uma mulher. Confrontado, o marido de Sandra sempre negou tudo, dizia que era honesto e fiel, mas as ligações continuavam. Sandra certa vez percebeu um caroço num dos seios, e por recomendação médica submeteu-se a uma biopsia.

A véspera de um feriado prolongado, Sandra recebeu uma ligação do consultório do médico, dizendo que o resultado da biopsia dera positivo. A voz informava que ela era portadora de um tipo raro de câncer, letal em 98% dos casos.

O fim de semana de Sandra foi dos piores, até que no primeiro dia útil subseqüente a notícia, ela descobriu que o caroço no seu seio era benigno e ela não precisava sequer operar. Mas uma coisa a intrigava. Quem teria interesse em desestabilizá-la emocionalmente? Poucas pessoas sabiam do seu problema, ela fez uma relação de quem sabia. Suas duas irmãs, sua cunhada e Taís, sua comadre, amiga de longa data e vizinha.

As ligações informando das infidelidades do marido continuavam. A esta altura, o casamento ia de mal a pior. Brigas e discussões que transformaram a vida do casal num martírio constante e interminável.

Um dos cunhados de Sandra era juiz de direito, e ela contou a ele a respeito das ligações, e do fato que a intrigava profundamente: a ligação do consultório do médico. Carlos, o cunhado, protocolou um pedido de interceptação telefônica, e a companhia providenciou um aparelho – que na época existia para uso restrito – que identificava as chamadas. Perplexa, Sandra descobriu que quem telefonava para a sua casa passando os trotes era Taís, sua comadre, a amiga de longa data e vizinha.

Confrontada Taís revelou o motivo de tudo: inveja. Tinha inveja mortal da amiga. Inveja do casamento dela, dos seus filhos, da sua beleza, das suas roupas, do seu modo de vida. Revelou que se pudesse mataria Sandra, tamanho era o seu ódio por ela. Como não tinha coragem de matá-la, resolveu atormentá-la com os telefonemas. Uma das formas para que isto acontecesse era primeiro acabar com o casamento feliz de Sandra. Taís queria ver a ruína da “inimiga”.

No episódio da ligação do “consultório” do médico, ela chorou junto com Sandra, para depois dentro de casa gargalhar e se alegrar com a tristeza e o abalo emocional da “amiga”. Quase havia conseguido o seu intento.

Normalmente a inveja é exercida onde se pode ver, onde pode se botar o olho. Por isso ela é tangível e palpável. Um jovem, por exemplo, não vai invejar o jogador de futebol que faz sucesso no momento, ou um ator qualquer de telenovelas. Mas inveja o seu vizinho, o colega de classe na escola, o companheiro de trabalho, e por aí adiante.

Coutinho marcou mais de trezentos e setenta gols na sua carreira igualmente vitoriosa, Carl Lewis, ganhou medalhas de ouro em três olimpíadas, Salieri, tinha um talento inato para a música, e cada um há seu tempo e a seu modo fizeram e marcaram história, mas ao se compararem com os seus “rivais” eles se rebaixaram e diminuíram-se diante do outro.

O invejoso é daquele que torce para que o “desafeto”, ao tirar a música no violino, arrebente uma das cordas. Ele às vezes, não vai querer que você morra, ele quer te ver dando vexame, fazendo papelão, que você seja um fiasco, e que todos riam de você. Ele vai tramar e urdir algo que te atrapalhe, e se você não perceber – melhor para ele. Vai mandar uma carta anônima, vai passar um trote telefônico, vai fazer com que a camisa do marido da amiga tenha uma mancha de batom, vai plantar a desconfiança no coração da amiga a respeito da demora do marido.

O jogador de futebol vai achar que o companheiro de time não lhe passa a bola porque não quer que ele faça o gol, o atleta que pratica atletismo, vai desejar que o “rival” tropece no obstáculo, ou que torça o tornozelo e fique inutilizado por um bom período. Por seu turno, o empresário é capaz de mandar um fiscal amigo e corrupto para atazanar a vida do concorrente que fechou um grande contrato.

Ou ainda é sórdido a ponto de “plantar” um funcionário seu na outra empresa para que ele faça sabotagem e atrapalhe a vida do rival. Ouvi uma história interessante sobre inveja nas grandes corporações. Uma das maiores empresas brasileiras de eletro eletrônico destinado ao uso doméstico demitiu todo o departamento de desenvolvimento de produtos – do diretor ao mensageiro – porque eles trabalhavam para o seu concorrente. Você pode afirmar que isto é espionagem industrial, quando na realidade é a inveja praticada com requintes.

No competitivo mercado empresarial, esportivo, artístico, o que mais se vê é gente jogando sujo para fazer com que o outro não obtenha êxito algum. Uma das características da inveja é que ela é eclética. É possível encontrar pessoas invejosas em todas as camadas sociais. Um empresário vai sentir inveja de outro empresário, especialmente se este comprar um avião ou um iate novo. Um jornalista vai corroer-se de inveja pelo texto de outro jornalista, uma atriz vai enfurecer-se contra outra, um vizinho de outro vizinho, um futebolista de outro futebolista, e até pasmem, um mendigo na sua absoluta miséria vai sentir inveja de outro maltrapilho como ele. Raramente, os ídolos da música, do esporte, das artes são invejados, porque são inacessíveis.

O invejoso devia ter como símbolo à serpente rastejante – que precisa estar perto para dar o bote. Não há escapatória. A inveja incorpora a ganância, a avareza, à voracidade, o ciúme e, sobretudo o ódio, escamoteado e surdo. Um ódio que se conserva, se armazena, que é permanente e que não pode ser aplacado. (sic)

A inveja é tão presente e entranhada no ser humano que não escolhe credo, cor, raça, nação, classe social, nível cultural, e não respeita ética, moral e limites. Santo Agostinho definiu bem e definitivamente a inveja. Para ele a inveja é o pecado diabólico por excelência e afirmava: “Da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia; a alegria causada pela desgraça do próximo e o desprazer causado por sua prosperidade”.

A inveja, infelizmente não respeita nada. Nada mesmo! O homem ou a mulher por melhor que sejam ao se compararem ao outro ou outra, sempre sairão perdendo. E dificilmente se recuperarão da comparação.

Dizem que você pode mexer com a moral de uma pessoa que ela não sente, você pode invadir o bolso e tomar-lhe o dinheiro e você provocará uma reação selvagem às vezes, mas igual a da comparação de similares não há. Ela – a comparação de similares – provoca dor e agonia, tristeza e revolta, rejeição e perda, humilhação e desprezo. Tudo por causa da inveja.

Maldita inveja.

Todos os direitos reservados ao autor – 24.03.2005

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3 Responses to "A Comparação – A Inveja no Mundo Secular"

Parabens !!!!! Li, mastiguei,ingeri, me alimentei e pensei a respeito dos que me rodeam…e de algumas situacoes em que me encontro hoje, devido a esse veneno mortifero chamado inveja.
E de fato verdade. Muitas vezes ate sem saber somos alvos dessas serpentes nojentas que rastejam por ai…

sua admiradora e amiga
Boston, 10 de abril 2009

Ual…. isso e que eu chamo de escrita de estilo.. a inveja, cuidado com o bote… sai daqui peconhenta!! kkkkk

Você escreve muito bem!
Deus lhe inunde de sabedoria para ajudar as pessoas e andarem na verdade.

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