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O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa – As Crônicas de Nárnia

Posted on: June 3, 2009


Jehozadak Pereira

Como preâmbulo deste artigo que escrevi tempos atrás, acrescento algumas considerações.

1. Ao filmar as Crônicas de Nárnia, a Disney quis agradar aos evangélicos?

Não, a Disney não quer agradar nenhum segmento religioso filmando As Crônicas de Nárnia. O interesse da Disney é meramente comercial.

2. As Crônicas de Nárnia é uma história cristã?

Não. Não é. Compare a trama com a Bíblia e jamais vai se encontrar por menor que seja qualquer coisa que se pareça com o cristianismo. Compare a trama com qualquer dicionário ou enciclopédia esotérica ou mística e vai ser possível encontrar muitas e muitas coisas relacionadas com o esoterismo, o misticismo, feitiçaria e bruxaria.

 3. C. S. Lewis não foi um escritor cristão?

Sim, após a sua conversão ele escreveu muita coisa boa, mas nunca renegou esta história esotérica, por mais que o defendam os seus devotos.

O irlandês Clive Staples Lewis, escreveu mais de 40 livros, e estima-se que da sua obra foram vendidos mais de 200 milhões de cópias, traduzidos em mais de 30 línguas. Entre as suas obras estão: “Regresso do Peregrino”, “O Problema do Sofrimento”, “Milagres”, “Cartas do Inferno”, uma trilogia de ficção científico-religiosa “Longe do Planeta Silencioso”, “Perelandra”, “That Hideous Strength”. Para crianças escreveu a série de fábulas “Crônicas de Nárnia” e nelas “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”. Considerado conto-de-fada cristão.

E é exatamente deste livro que quero tratar neste artigo. C. S. Lewis é considerado por muitos como o maior escritor cristão que o mundo já teve. Lewis é citado por pregadores, recomendado por homens influentes, estudado nas faculdades, nos seminários e nos institutos bíblicos. É comum ouvir em certos púlpitos mensagens onde Lewis é mais citado do que Jesus Cristo, e seus livros de referencial em lugar da Bíblia.

Há uma verdadeira febre e devoção a Lewis, muitos o incensam como o modelo ideal de escritor. Ateu desde a sua infância converteu-se ao cristianismo em 1929, na Igreja Anglicana, e é tido como o porta-voz não oficial do cristianismo, como se o cristianismo precisasse de um porta-voz, oficioso ou oficial a despeito de que o nominado seja C. S. Lewis.

Talvez Lewis tenha sido levado a este panteão por seus fiéis seguidores, que ignoram tantos outros nomes de relevância na pregação e divulgação do Evangelho ao longo dos séculos.

Será que podemos considerar este “laurel” como uma prova de fanatismo, semelhante aos seguidores e admiradores de Freud e Jung? Lembro aos meus leitores de que os seguidores de Jung o têm como um deus, e o consideram como o profeta escolhido dos deuses para dar-lhes o caminho da redenção. Que estes últimos tenham suas preferências vá lá, mas crentes o fazendo é no mínimo muito estranho.

Tempos atrás eu conversava com um amigo a respeito de Lewis e Tolkien, e ele me disse uma coisa que me fez pensar bastante. Desde quando o mundo secular elogia e respeita o que é nosso – ou melhor, o que se diz cristão, especialmente na área da literatura? Não é estranho que o mundo elogie um dos “nossos”?

Não estou discutindo a fé de Lewis, e nem as outras obras dele, estou expondo os problemas que existem em O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. A trama é repleta de simbolismos, e ouso dizer que é uma história com fundo esotérico. Certamente esta afirmação vai provocar o espanto de muitos. Mas o que você diria duma história onde há faunos, um guarda-roupa que é um portal, ninfas, anões, dríades, Lilith – a tradição cabalística diz que Lilith, seria o nome da primeira mulher criada antes de Eva, não da sua costela, mas diretamente da terra, tal como Adão. – Somos todos os dois iguais, teria dito Adão; e após uma discussão, Lilith encolerizada, pronunciou o nome de Deus, e fugiu para iniciar a sua carreira demoníaca, ou que ainda Caim e Abel brigaram por causa de Lilith.

Alimento enfeitiçado, sátiros, centauro, minotauro, cavalo alado, náiades, unicórnio, um leão que morre e ressuscita, ogres, duendes, vampiros, espíritos que moram nas árvores, fantasmas, lobisomens, íncubo – demônio masculino que, segundo velha crença popular, vem pela noite copular com uma mulher, perturbando-lhe o sono e causando-lhe pesadelos – mortos que ressurgem para a vida, e finalmente uma feiticeira.

Mas não uma feiticeira qualquer. É uma feiticeira branca. Não se trata de ver o mal. A perversidade das trevas no escrito de Lewis, somente porque há a feiticeira, seja ela de qual cor for. O comprometimento é muito maior do que se pensa, além do que a Bíblia nos diz o que acontecerá com os feiticeiros, repito – seja lá de qual cor forem.

A feiticeira é o menor dos problemas…

Ao que parece, aqui quer se “santificar” a feiticeira branca, somente porque foi Lewis quem a colocou na história, e para muitos isto basta, afinal foi um homem “santo” quem o disse. Mas voltando aos comprometimentos do livro, este exército de demônios luta ao lado do bem – de Aslam, o leão que é morto e ressuscitado, contra o mal – a feiticeira.

A trama toda começa quando Lúcia entra no guarda-roupa mágico e quando se dá conta que está num país, onde é inverno o tempo todo. Dentro deste país – Nárnia, Lúcia conhece o Sr. Tumnus – um fauno – divindade campestre caprípede, cornuda e cabeluda – conforme a descrição do livro da cintura para cima parecia um homem, com pernas de bode, com pêlos pretos e acetinados, com cascos de bode no lugar dos pés e uma cauda.

Mas eu quero deter-me nas palavras da Professora Gabriele Greggersen que dizem literalmente o seguinte no seu artigo Um encontro e tanto: “Como autora de uma dissertação a respeito de O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa, a primeira obra escrita da famosa série de contos-de-fada com fundo cristão – as Crônicas de Nárnia…”. Como pode ser cristão, um texto repleto de seres fantásticos? De seres advindos das trevas que lutam ao lado do “bem”?

Vejamos o que são os tais contos-de-fada na definição de quem entende e sabe o que significa. Nise da Silveira no seu livro Jung Vida e Obra escreveu o seguinte: “Jung diz que os contos de fadas têm as suas origens nas camadas mais profundas do subconsciente, comuns à psique de todos os seres humanos. Os homens sempre gostaram de histórias maravilhosas. Assim como as crianças. Afirma ainda que é salutar para os homens ouvirem a narração dos contos de fadas, e a narração de velhos mitos.

Jung prossegue dizendo que tanto os mitos quantos os contos de fadas são a mais perfeita expressão dos processos subconscientes. O homem pressentirá obscuramente que ali se espelham acontecimentos em desdobramento no seu próprio e mais profundo íntimo. Afirma que não se trata de acreditar nos feitos heróicos e nos encantamentos que as histórias descrevem, e que as verdades não são objetivas e sim verdades subjetivas, que são narradas na linguagem dos símbolos. Jung, porém tem consciência e admite que tanto as histórias quanto os mitos não passarão pelo crivo das exigências racionais. Finaliza afirmando que são essas ressonâncias que fazem no conceito dele o eterno fascínio dos contos de fadas”.

O professor e escritor Bruno Bettelheim define assim os contos-de-fada.“Os contos de fada, considerados por pais e educadores até pouco tempo como ‘irreais, falsos’ e cheios de crueldade, são para as crianças, o que há de mais real, algo que lhes fala, em linguagem acessível, do que é real dentro delas. Os pais temem que os contos de fadas afastem as crianças da realidade, através de mágicas e fantasias. Porém, o real, a quem os adultos comumente se referem, é o externo, é o mundo circundante, enquanto que o conto de fadas fala de um mundo bem mais real para as crianças. Durante muito tempo, os contos de fadas jazeram esquecidos, desprezados e banidos sob alegação de irreais e selvagens, em vista de suas tramas sempre altamente dramáticas. Depois que a psicologia desmistificou a inocência e a simplicidade do mundo das crianças, os contos de fadas voltaram a ser lidos e discutidos, justamente por descreverem um mundo pleno de experiências, de amor, mas também de destruição, de selvageria e de ambivalências. A psicanálise provou que os pais temem que seus filhos os identifiquem com bruxas e monstros, ogres e madrastas e com conseqüência os deixe de amar. Porém ao contrário, podendo vivenciar tudo, identificando-se e os pais com os personagens dos contos, os filhos têm sua agressividade diminuída, podendo amar os pais de maneira mais sadia. O conto assim contribui para um melhor relacionamento familiar. Entretanto, a maior contribuição dos contos de fadas é em termos emocionais, propondo-se e realizando concretamente quatro tarefas: fantasia, escape, recuperação e consolo. Desenvolvem a capacidade de fantasia infantil: fornecem escapes necessários falando aos medos internos da criança, às suas ansiedades e ódios, seja como vencer a rejeição (como em João e Maria) ou os conflito edípicos com a mãe (como em Branca de Neve) ou a rivalidade com os irmãos (como em Cinderela) ou sentimento de inferioridade (como em As Três Plumas). Os contos aliviam as pressões exercidas por esses problemas; favorecem a recuperação, incutindo coragem na criança, mostrando-lhe que sempre é possível encontrar saídas. Finalmente os contos consolam e muito: o final feliz, que tanto adultos consideram irreal e falso é a grande contribuição que os contos favorecem as crianças, encorajando-as à luta por valores amadurecidos e a uma crença positiva da vida”.

A mim me parece deslealdade, afirmar que o fabulário mundial está repleto de seres e entidades demoníacos, e ao mesmo tempo dizer que não há problemas em se aceitar isto como regra de fé e prática, pois afinal tudo é “fantasia”.

Mas quem precisa de fantasia? Já ouvi algumas vezes, que Aslam, é o protótipo de Jesus Cristo, pois ele morre e ressuscita, para resgatar a vida de muitos. Ouvi inclusive relatos emocionados acerca disto. Outro fato que emociona a muitos é quando Aslam convoca a todos para derrotar o mal – ou a feiticeira. E desde quando o bem personificado em Jesus Cristo precisa da companhia de ratos e um leão fedorento para vencer o mal.

Mas como o mal pode vencer o mal?

Centauros, unicórnios, cavalos, gigantes, anões, bichos menores, faunos, leões, cães, compunham o exército de Aslam, na sua luta contra o mal. Não preciso dizer que muitos destes são demônios literais. E vejam que não sou eu quem o digo. E muito menos fui eu quem os colocou ao lado de Aslam.

Qualquer dicionário de esoterismo pode dizer o que é um centauro ou mesmo um unicórnio, ou esclarecer ainda o que é um fauno ou um sátiro. Outro dia recebi um e-mail falando que a Bíblia cita em Isaías 34.14, a palavra sátiro. Queriam me mostrar e convencer de que o simples fato de a Bíblia citar é o suficiente para corroborar e confirmar o uso do termo por Lewis.

Que queiram acreditar e mais ainda, crer que o livro O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, é um “poderoso” instrumento de evangelização e uma “alegoria” do Evangelho, que creiam, mas desde quando o Evangelho precisa de “alegoria”? Desde quando um livro repleto de citações de demônios pode ser uma “alegoria” do Evangelho?

Se isto – demônios for “um poderoso” aliado do Evangelho o que vamos fazer com Hebreus 4:12? Que Palavra VIVA é esta que precisa do suporte de demônios para ser pregada? Que Palavra EFICAZ é esta que precisa de “alegoria” para ser aceita? Que Palavra CORTANTE é esta que necessita de apoio na mitologia e no misticismo?

As semelhanças de Aslam com Jesus Cristo são muitas. Uma delas é chocante. Quando Aslam morre a Mesa de Pedra se rompe e parte em dois pedaços; “Mas, se fosse um pouco mais longe, de penetrar na escuridão e no silêncio que reinam antes da aurora do tempo, teria aprendido outro sortilégio. Saberia que, se uma vitima voluntária, inocente de traição, fosse executada no lugar de um traidor, a mesa estalaria e a própria morte começaria a andar para trás… E agora…”

Qual foi o inocente que fez romper o véu? Que traído e inocente foi sacrificado para vencer o mal? Certamente muitos me contestarão, mas com certeza não responderão ou não terão argumentos para dizer que em O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, não há misticismo e criaturas fantásticas. Certa vez eu escrevi um artigo repercutindo uma matéria publicada na Revista Veja, que citava Lewis e Tolkien, como autores de literatura semelhante à de J. K. Rowling, a nefanda autora de Harry Potter. Foi o suficiente para que recebesse uma enxurrada de e-mails desaforados defendendo Lewis.

Com certeza desta vez emitirão uma fatwa contra mim. Mas não me importo. O que me importa é a verdade é dizer em alto e bom som que em O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, há contaminação espiritual, a começar do guarda-roupa que é um portal esotérico e a findar em Aslam, em nome de quem se deseja que as aventuras continuem.

Perigosas aventuras…

Copyright©2003 – todos os direitos reservados ao autor – agosto/2003

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3 Responses to "O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa – As Crônicas de Nárnia"

Meu amigo Jehozadak caminhou pelas veredas religiosas e escreveu um artigo bem equipado, porém contra todo conto de fadas e fantasias.

Como tenho grandes memórias, belíssimas e agradáveis, de minha infância, posso afirmar que jamais fui contaminado pelas estórias que minha mãe e especialmente minha tia Léa me contaram, mesmo aquelas que hoje arrepiariam muitos pregadores e escritores anti-tudo que não seja realidade.

O denominado “esoterismo” de C. S. Lewis com todas as suas personagens é interpretação um tanto quanto fundamentalista.

A desqualificação do “conto” como anti-bíblico, exagero. Não se pretendeu escrever uma analogia do texto bíblico… Existem elementos de todo jeito, muita criatividade, e imaginação exorbitante.

Como conheço mesmo meu amigo Jehozadak posso até esperar dele uma resposta do mesmo tamanho do artigo que escreveu. Uma tempestade de verão de final de tarde…

Mas como sou livre para pensar diferente dele, livre para opinar e postar aqui meu comentário, não fiquei somente com o Guarda-roupa, mas avancei um pouco mais com o Príncipe “Gaspian”.

Li muitas obras deste gigante chamado Lewis.

Não lí a série de sete livros das crônicas, mas dei de presente para meu sobrinho mais velho. Ele vibrou!

E sua fé em Cristo, não simplesmente por causa dos livros de Lewis, mas de seu conhecimento da Palavra e testemunho dos pais, tem florescido. As crônicas com personagens “esotéricas, demônios, etc” não contaminou a fé do menino… De jeito nenhum.

Li “O Mero Cristianismo” por exemplo: é um desafio para pensar e meditar bastante. O conceito de Lewis sobre eternidade, então, me encheu a alma.

Se não conhecesse Jehozadak e sua sinceridade acharia que a sua exigência literalista para fazer do conto em foco no artigo uma obra bíblica uma reação de um caçador de bruxas.

Sei que não é este o caso, porque o jornalista amigo é somente zeloso, e gente zelosa escreve coisas como escreveu.

o que voce dis nao faz o menor sentido
é claro q ele se baseia nas escrituras mostrando claramente citaçoes religiosas
Aslan nada mais é do que a representaçao de Cristo ( o leao da galileia conforme o velho testamento) por isso ele ressucita apos ter se sacrificado pelo pecador arrependido ( Edimundo)
os seres magicos sao uma forma de unir o util ao agradavel fasendo uma historia interessante sem, de modo algum desmeresser a Sagrada Biblia
tenho muitas outras provas
sou Catolico, fasso parte do grupo de acolitos e coroinhas da comunidade Nossa senhora do carmo e vim te desmintir
se quer entrar em contato me add no msn
gutomanzano@hotmail.com
que a paz esteja com vosco

Caro, com todo respeito é uma tolice se levantar contra algo como cronicas de Narnia… o intuito de Lewis não era escrever a cópia da Bíblia e sim um conto… que mal tem os contos? esoterismo? Abra sua visão das coisas! Pois acredito sim que este tipo de leitura deveria ser incentivada nas igrejas, acompanhada de esclarecimentos sobre analogias e algo mais, pois o que tem alimentado nossas crianças e jovens é muito mais perigoso do que o “esoterismo” de Lewis… Sei de uma coisa, li os sete livros das crônicas e minha fé não foi abalada, não creio em monstrinhos, não virei esoterico, pelo contrario, leia o ultimo livro “A ultima batalha” e verá a não que a sua teologia realmente tenha cegado você, que é uma analogia clara sobre a volta de Jesus… a Bíblia não precisa de ajuda nem alegoria, e As cronicas não são alegorias, são um conto sem pretenção de aniquilar a bíblia… Se você for adepto a conselhos, aconselho que os leia sem precondceito e aí depois você pode postar outro artigo dizendo o que achou.
A paz do Rei!!!

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