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Entrevistas: Russell Shedd

Posted on: July 17, 2009


Há alguns anos entrevistei uma série de personalidades para a Refletir Magazine, onde fui editor por três anos, e um dos meus entrevistados nesta época foi Russell Shedd. Este material está guardado e resolvi publicá-lo aos poucos e dividir com os leitores. A entrevista que na época da sua publicação causou muita polêmica por causa das respostas do Dr. Shedd, foi publicada originalmente no www.refletir.com.

Russell Shedd

Americano nascido na Bolívia, onde seus pais foram missionários, Russell Shedd, serviu ao Evangelho em Portugal e adotou o Brasil para morar. Casado com D. Patrícia e pai de cinco filhos – Timóteo, Nataniel, Pedro, Helena e Joy, aos 74 anos, respondeu todas as perguntas – inclusive as mais polêmicas. É muito requisitado e viaja o mundo todo pregando. Crê que a igreja brasileira pode influenciar a igreja americana a pregar novamente como antes, inclusive retomar os investimentos na área de missões. É autor de vários livros, e fundador de Edições Vida Nova; é editor da Bíblia Shedd, e um dos mais respeitados teólogos e escritores e, também, uma autoridade em questões bíblicas. Foi entrevistado com exclusividade por Paulo DeOliveira e Jehozadak Pereira, para a Refletir Magazine. 

Refletir – A desigualdade social é um problema para a igreja atual?

Russell Shedd – Deve ser problema, mas não é muito focalizado como problema. Quando a gente fala de desigualdade, pensamos que isto ocorre do lado de fora e não dentro da igreja. É um assunto pouquíssimo abordado. Quando falamos em desigualdade social pensamos em meninos de rua, gente que não tem onde morar, etc. Logo que a pessoa se torna membro da igreja quase não vê isto. Pensa que não existe, mas existe sim.

Refletir – A ausência de tratamento de tais problemas, passa pela falta de discipulado?

Russell Shedd – Passa, pelo fato de que é um ninho de víboras. Se começar a falar vou ofender a pessoa que tem dinheiro, ele vai entender que tem de ajudar as pessoas necessitadas, o que talvez ele não queira fazer. E com isto vai se sentir ofendido.

Refletir – Então a igreja com medo de ofender não pede ajuda?

Russell Shedd – Isto. Eu tenho um amigo em New Jersey, e ele tem uma companhia que constrói nove escolas, e com certeza ele tem dinheiro, e contribui bastante para ajudar necessitados, e eu não posso pedir mais contribuição dele. A igreja pode ajudar. A igreja primitiva cuidava de viúvas e órfãos – milhares deles. Só no fim do primeiro século a igreja cuidava de três mil órfãos e viúvas – só a igreja de Antioquia. Havia outras 1,5 mil em Roma.

Refletir – Como o senhor vê o distanciamento da igreja destas práticas?

Russell Shedd – É o perigo de sentir que se o governo já tem um plano social, e achar que este projeto é melhor do que aquilo que a igreja pode fazer. Há também o medo de afetar os cofres da igreja. Logo, deixa-se para que o governo resolva o caso. Naquela época não havia interferência do governo e muito menos ajuda. Então a igreja tinha de agir.

Refletir – A falta de convicção é um outro grave problema na igreja hoje?

Russell Shedd – Este é o problema do mundo livre. Justamente porque não nos custa nada ser cristão. Logo, não custa nada abandonar o cristianismo, daí termos muitas pessoas que são ex-cristãos. Quem se arrisca muito para ser cristão, em países como a China, Índia, não é qualquer dificuldade que vai fazer com que o cidadão abandone o cristianismo.

Refletir – Esta falta de convicção, passa pela ausência de pregadores da graça de Deus?

Russell Shedd – Talvez haja pregação de graça barata. Deus é um Deus de leis. Toda a criação se baseia em leis, leis, leis, naturais, morais e espirituais. Toda causa tem um efeito. O que é a graça? É escapar do efeito da lei. Em vez de receber punição, castigo e morte, alguém vai me perdoar. Se eu pregar esta idéia com muita veemência e não colocar nada sobre a lei de Deus na criação, o que a pessoa vai pensar? Que Deus leva todo mundo para o céu. Não tem inferno, o purgatório já quase desapareceu – risos. O inferno também está desaparecendo, e daqui alguns anos ninguém mais vai falar no inferno. Isto significa que Deus é gracioso para com todo mundo, aliás, a Igreja Católica entrou nesta fase. Eu tenho informações de um alto funcionário da Igreja Católica, dizendo que Deus é gracioso, então não devemos falar de outra coisa. Nunca fale para o pecador que ele é condenado, fale que ele é aceito por Deus. Deus aceita todo mundo.

Refletir – O cidadão vem do jeito que está, não se trata, não se cura, vem baseado somente na graça?

Russell Shedd – Exatamente, é a graça barata.

Refletir – A igreja está doente?

Russell Shedd – De certo modo, a igreja é doente. Mas, há igrejas locais bem organizadas, são firmes teologicamente, recebem pregações bíblicas, e há outras que não falam da Bíblia, não usam a Bíblia, falam o pensamento que sai na cabeça.

Refletir – Isto no seu ver é muita teologia, ou falta de teologia?

Russell Shedd – É falta de teologia, que é buscar na Bíblia e organizar estas verdades dentro de uma lógica e de padrões e sistemas para dizer que uma verdade é uma verdade ou uma mentira. Quando se fala de condenação, dizer que Deus não condena ninguém, é uma declaração teológica, e não há uma condenação para ninguém que crê em Cristo.

Refletir – A criação de novas teologias não é um mal para a igreja?

Russell Shedd – Claro, a igreja fica vazia. Em países como a Inglaterra, a França que chegou a ter 40% da sua população de evangélicos, logo depois da reforma sob a influência dos calvinistas e huguenotes. Logo depois do massacre de São Bartolomeu foi caindo, caindo e hoje é menos de 0,5%, oitenta vezes menos! Esta é a situação em toda a Europa.

Refletir – O senhor vê isto como um avanço do misticismo e do esoterismo? Esta é uma tendência da igreja americana e brasileira?

Russell Shedd – Menos americana do que brasileira, mas com certeza é uma tendência aqui, porque os Estados Unidos segue a Europa em quase tudo, especialmente teológico. A igreja americana tem mais vitalidade, porque é nacional e está separada do Estado, como no Brasil. Na Alemanha, por exemplo, quem paga o pastor é o governo, e às vezes o pastor nem crente é, a exemplo de professores nos seminários teológicos. É por isso que as pessoas saem das igrejas e não voltam nunca mais. Na igreja do meu genro na Alemanha, eles colocaram no estatuto, que o pastor tem de ser crente.

Refletir – Com esta interferência do Estado, não voltamos a Constantino?

Russell Shedd – Tem razões históricas, com o Estado pagando pastores.

Refletir – Teologicamente, com o misticismo tomando conta do mundo, o senhor crê numa ação de Deus?

Russell Shedd – Em alguns lugares do mundo com certeza. Na China, em partes da África e até no Brasil, tem ocorrido mudanças notáveis e para melhor. Estive numa igreja em Santarém, no Pará, e houve um crescimento de uns 400 para 20 mil membros em dez anos. Tem dois mil grupos de estudos bíblicos na cidade que tem pouco mais de 300 mil habitantes; tem também 80 barcos subindo e descendo o rio, abriram mais de 250 igrejas, entregam filtros para que a população não sofra com disenteria. Isto para mim é um sinal de avivamento.

Refletir – O senhor crê que Deus vai agir em partes separadas e não uma ação geral a respeito da salvação?

Russell Shedd – É notável, que países que já tiveram oportunidades, o Evangelho fica parado. Norte da África, na Turquia – onde estive meses atrás, não há igrejas em parte alguma e o governo é contra totalmente, há uma antipatia generalizada. A Turquia foi o lugar onde a Ásia ouviu o Evangelho, uma vez que o Evangelho perde vez, é muito difícil voltar. O francês não quer nem saber do Evangelho. Um país quando volta para trás, é muito difícil, é como alguém que é imunizado, há países vacinados contra o Evangelho.

Refletir – Quando uma pessoa sofre por amor a Cristo, está terminando o sacrifício de Cristo. Quando o senhor afirma isto, diz então que o sacrifício de Cristo está incompleto?

Russell Shedd – Sim, são sacrifícios para tirar pecados. O sacrifício que Paulo fala é o do avanço do Evangelho, para a proclamação deste. Não para tirar pecados, mas, para entrar em terras dominadas por demônios.

Refletir – Mesmo com sofrimentos?

Russell Shedd – Só com sofrimento. Se quisermos dominar uma terra que nunca foi evangelizada, só com sofrimento.

Refletir – O senhor falou na Turquia, que é um país islâmico. O islamismo é o maior adversário do Evangelho hoje?

Russell Shedd – Sem dúvida alguma. É muito forte em países africanos, que tem influência católica. Em Moçambique, por exemplo, o islamismo é muito forte no norte do país. É como se uma onda fosse descendo. Na Nigéria, que tem até presidente evangélico, mas tem se dobrado ao islamismo. Veja o Sudão, onde há conflito entre o Evangelho e o islamismo causando martírios e mortes.

Refletir – Quais os fatores que fazem com que pessoas deixem o cristianismo para ir para o islamismo?

Russell Shedd – Não são tantos assim. São pessoas abertas ao animismo. A Guiné Bissau há 50 atrás era animista e hoje metade da população é islâmica. Aonde o cristianismo chegou primeiro o islamismo tem muito mais dificuldade de entrar. A África do Sul é um exemplo disto.

Refletir – Qual é a tendência da igreja no século 21?

Russell Shedd – Têm diferentes tendências. Na Ásia, a igreja cresce muito e rapidamente. Nos Estados Unidos, me parece que há uma acomodação, principalmente nesta região. No Sul, a igreja é muito forte e cresce bastante. No Brasil, há um crescimento do evangelicalismo, mas há uma forte tendência de se aderir à teologia da prosperidade, que se não for muito bem sustentada e ministrada através de estudos bíblicos, para que as pessoas possam entender o que significa um compromisso com o senhorio de Cristo, e não para receber uma vida confortável, emprego, etc.

Refletir – Quais são as necessidades da igreja?

Russell Shedd – Pregação expositiva da palavra. Pessoas que preguem mesmo.

Refletir – O senhor vê uma solução em curto prazo?

Russell Shedd – Não. Tem de começar nas escolas, seminários, púlpitos, etc. Literatura. Quando começamos a Vida Nova em 1962, o interesse em literatura mais consistente era muito pequeno, e demorávamos anos para vender uma edição qualquer de um livro teológico. Hoje não. Vende mais rápido e mais fácil. Isto nos anima. Estamos esperando homens brasileiros com conhecimento e profundidade para escrever, e eles estão chegando. Já temos alguns, um deles é o pastor Luiz Sayão.

Refletir – Quem são os pensadores na igreja brasileira hoje?

Russell Shedd – Boa pergunta. Augustus Nicodemos, Luiz Sayão, Ivênio dos Santos, Ari Veloso, Carlos Oswaldo, Ariovaldo Ramos, Ed René, e muitos outros.

Refletir – Quem é o grande nome do Evangelho no Brasil hoje?

Russell Shedd – Além de Caio Fábio? Nunca houve nenhuma dúvida que ele era o grande nome. Agora quem fica no lugar dele? Talvez o Ricardo Gondim, que é um pensador, e entendo agora que algumas coisas que ele tem escrito são perigosas, ele tem ido muito para a linha arminiana, e tem uma reação muito forte contra qualquer idéia – que para mim é bíblica – calvinista. Isto tem empurrado ele para uma teologia de Deus de processo – esperar para ver o que vai acontecer.

Refletir – Com a queda do Caio Fabio, não era o Ricardo Gondim, que tinha de assumir o papel deste? Ele se omitiu?

Russell Shedd – Que eu saiba não. Ele não se omitiu. Ele articula suas posições, prega bastante, acho que o Edir Macedo tem mais influência, talvez por causa da rede de televisão. Há também o R. R. Soares, que é o rosto que mais aparece na TV brasileira hoje, inclusive em horário nobre.

 Refletir – Como o senhor vê estes homens teologicamente?

Russell Shedd – É nesta linha da prosperidade, mas penso que eles crêem na salvação, só que isto não fica muito claro, eles não enfatizam isto, creio que por causa da audiência. Não sei porque eles não chamam as pessoas ao arrependimento.

Refletir – O senhor crê que é o misticismo entrando junto com a prosperidade?

Russell Shedd – Talvez. Mesmo assim, existem muitas conversões, tenho visto muitas pessoas convertidas nestas igrejas.

Refletir – Estes líderes o preocupam?

Russell Shedd – Sim, eles nunca participam de nada, nunca ouvem ninguém, são uma incógnita. Eles se acham poderosos e vêem os outros como pessoas sem importância.

Refletir – Será que não é o pensamento de que a letra mata?

Russell Shedd – Pode ser. Veja o caso da Assembléia de Deus. Eles se isolaram, e as denominações que tinham mais formação teológica, queriam jogar para fora as influências carismáticas. Nos anos 60 as denominações se dividiram por causa do pentecostalismo. Desenvolveram posições opostas, e hoje está bem mais moderado.

Refletir – Os dons da igreja primitiva estão disponíveis para a igreja hoje?

Russell Shedd – Em alguns lugares, não em geral. Veja lá em Apocalipse; igrejas que começaram bem e depois decaíram. E se Deus quer, podem estar disponíveis em todos os lugares. Depende do Senhor e de como Ele quer derramar o seu poder.

Refletir – O que significa para um batista conservador conviver com as diversidades cristãs no Brasil?

Russell Shedd – É só por sermos filhos de um mesmo pai. As divergências de posições e pensamentos são de menos importância do que o fato de que somos irmãos.

Refletir – Se o senhor tivesse que começar sua carreira hoje, por onde iniciaria?

Russell Shedd – Tentaria pecar menos – risos.

Refletir – O senhor é um homem feliz?

Russell Shedd – Plenamente.

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1 Response to "Entrevistas: Russell Shedd"

“(Os cristãos) não desprezam à viúva, não contristam ao órfão; o que tem, fornece-lhe abundantemente ao que não tem.” Arístides (125d.C.) Em vez de pagar um pastor assalariado com suas oferendas a igreja primitiva apoiava os órfãos e viúvas. http://www.aigrejaprimitiva.com/dicionario/ORFÃOSEVIUVAS.html

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