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Sintomas do invejoso – parte 2

Posted on: November 17, 2009


Jehozadak Pereira

Ossos podres

Três meses depois da morte de Alceu, sua mulher foi procurada de novo pelo delegado que quis saber se entre os primos havia ocorrido algum incidente que pudesse ser a causa do assassinato. Nada. Ela não se lembrava de nada. O delegado insistiu e ela de novo respondeu negativamente. Ao sair o delegado disse que se ela se lembrasse de alguma coisa por mais insignificante que fosse que o comunicasse.

Naquela noite ela não dormiu. De repente ela se lembrou de algo que lhe deu calafrios. Havia descoberto o motivo do crime. Ao terminarem a faculdade Alceu e Fabrício haviam feitos juntos o trabalho de conclusão do curso, trabalho que havia dado a Alceu a bolsa de estudos na Europa.

Para os trabalhos que fossem feitos em conjunto ou em grupo, um sorteio determinaria quem teria direito à bolsa de estudos; esta era a regra pré-estabelecida. Em outros cursos da faculdade a mesma coisa havia acontecido.

Na ocasião Fabrício abateu-se e levou meses para se recuperar. Depois daquilo nunca mais foi o mesmo. Deixou de lado o sorriso fácil e sincero para se transformar num homem triste e por vezes amargurado. Muitas vezes deixou de ir trabalhar por ter bebido na véspera e outras vezes deixava o trabalho no meio do dia para ir beber. Esta crise durou quase todo o período em que Alceu estivera fora, e quando esse voltou encontrou Fabrício aparentemente recuperado.

O convívio deles neste período de um ano desde a volta até a morte de Alceu fora de muito trabalho e sem nenhum incidente grave. A exceção foi à festa de aniversário de um dos filhos de Alceu que Fabrício deixou de ir.

Ao convocar Fabrício para depor novamente o delegado fez-lhe as mesmas perguntas da primeira vez, e acrescentou novas questões, desta feita acerca do sorteio e da sua reação à época. Fabrício gaguejou e perguntou se estava detido, e se podia ter a presença de seus advogados.

Finalmente o assassino havia sido descoberto.

Ele havia mandado matar o primo por causa da inveja e de ciúmes. Sentira-se ultrajado e diminuído na ocasião do sorteio. Era ele quem deveria ter ido. Era ele quem deveria ter sido contemplado. Mas não, fora Alceu, e isto ele não podia perdoar. Durante meses ele tramou a morte de Alceu. Decidiu que iria mandar matá-lo, quando voltasse. Não iria perdoar. Faria a coisa perfeita, faria a coisa de modo a não ser incriminado. Planejou cada detalhe, e durante meses buscou quem pudesse executar o crime. Um assassino de aluguel foi contratado e matou Alceu. Vinte dias depois do crime o assassino foi morto numa emboscada por justiceiros. Fabrício pensou que estaria impune definitivamente.

Friamente ele contou ao delegado a história, e como durante todo o tempo alimentou ódio e rancor contra seu primo, narrou como havia dias em que não conseguia se levantar para trabalhar. Mas quando pensava na vingança e de como mataria Alceu, animava-se novamente. Disse uma frase que demonstrou toda a sua frieza – que muitas vezes sentia os seus ossos como que ardendo, queimando, e seu único pensamento quando isto acontecia era o de que o seu “desafeto” morreria.

Deu detalhes de como premeditou a morte de Alceu, e para surpresa do delegado, do escrivão e dos advogados afirmou que faria tudo novamente. Disse ainda que se pudesse matar Alceu dez vezes o faria.

O delegado em mais de vinte anos de profissão jamais vira um caso tão chocante quanto este. Fabrício, mesmo depois de ter mandado matar o seu parente ainda destilava ódio e rancor. O seu olhar era frio e impiedoso. O avô de ambos precisou ser internado com um princípio de enfarte, e a família precisou de anos para se recuperar do ocorrido.

Fabrício foi condenado a vinte anos de prisão e tempos depois, foi morto a golpes de estilete na cadeia onde cumpria pena durante uma rebelião.

Quantos casos semelhantes ao de Alceu e Fabrício se repetiram ao longo da história? Quantos alimentam ódio e rancor mortal por causa da inveja?

O invejoso quer ser o outro, quer ter as coisas do outro, quer possuir o que por direito não lhe pertence, o próximo passo seguinte à inveja é o ressentimento. O ressentimento vai envenenar a alma do indivíduo, de modo que se ele não dominar os seus impulsos, passará a ter desejos de vingança, pois se sentirá ultrajado e infamado na sua personalidade.

O invejoso não se forma de uma hora para outra. Ele vai desenvolvendo a peçonha da inveja ao longo dos anos. A inveja pode estar adormecida no seu interior. O invejoso pode ver qualquer um como seu inimigo pessoal. Pode ser o vizinho que acabou de comprar um carro novo, pode ser o colega de trabalho que recebeu uma promoção, pode ser o amigo que recebeu um elogio, que ele julga ser merecedor. Por vezes o invejoso está tão preocupado com o outro, que ele julga seu oponente que acaba desperdiçando oportunidades, que poderiam fazê-lo crescer e realizar as suas ambições.

O invejoso sempre vai achar que o culpado pelo seu fracasso pessoal é o sucesso alheio. 

O invejoso é carente, dependente e invariavelmente deixa de lado a personalidade tímida para assumir uma máscara de arrogância e prepotência que não vai deixá-lo sair do buraco em que se encontra.

A inveja é um sentimento singular. Na inveja não há pluralidade. O invejoso é furtivo, e nunca vai partilhar o seu (mau) sentimento com ninguém. A inveja é considerada “um mal secreto”. A inveja é uma velha dama indigna, de má reputação e péssimo caráter, sorrateira, capaz de com um simples olhar, murchar plantas e secar pimenteiras.

São Tomás de Aquino abordou a inveja – “tristina de alienis bonnis” – ou seja, ela tem em sua composição a tristeza em relação às coisas boas dos outros. Esse sentimento a contemplação da felicidade alheia destaca. É um sentimento que não mostra a cara, porém destila veneno, fala com maldade disfarça, escamoteia e é traiçoeira.

Não há inveja “boa”. Todo sentimento de inveja é mau e pernicioso. O dicionário Aurélio define a inveja como um desgosto ou pesar pelo bem alheio; desejo de possuir o que o outro tem. O invejoso constantemente se pergunta por que o mundo foi tão “injusto” com ele? Afinal quem merecia as “coisas”, dons, características que o outro possui é ele.

Freqüentemente o invejoso pensa que o outro achou a verdadeira fórmula e receita de felicidade, e que ambas deveriam ser passadas para ele também.

O invejoso chega a conclusão que lhe falta algo. Que há um “vazio” na sua vida, há um buraco que deve ser preenchido com algo.

Este algo é o que o outro tem. É o que o invejoso vai perseguir. Este é o sintoma que ele sente, e que só vai ser suprido se ele se curvar aos pés do Senhor.

* Os nomes são fictícios, baseados em fato real.

Todos os direitos reservados ao autor

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