Jehozadak Pereira.com

Filhos violentos

Posted on: March 14, 2011


Jehozadak Pereira

–       Cala a boca que eu te quebro a cara!

Com o dedo apontado para a cara da mãe, foi que Marcelo, 28 anos, 1,82 metros e físico talhado com muitas horas semanais na academia, gritou com Maria, sua mãe. A reação de Maria, 1,65 metros, 52 anos e físico franzino, foi dar um safanão no dedo de Marcelo, que causou uma grave luxação. A seguir ela deu um soco no olho, outro no nariz e para finalizar deu um chute nas partes genitais de Marcelo. Com a gritaria de Marcelo, Carlos, o irmão mais velho, tirou de cima dele Maria que tinha nas mãos uma cadeira para continuar batendo em Marcelo.

Com o dedo fraturado; o olho inchado e o nariz quebrado; Marcelo jamais poderia esperar uma reação tão violenta e desmedida por parte de Maria, mesmo porque tem o dobro da força física da mulher. Levado ao hospital, o médico perguntou de quantos homens Marcelo havia apanhado. Surpreendeu-se ao saber que havia sido uma mulher franzina que fizera aquele estrago todo na mão e no rosto de Marcelo.

Maria e Marcelo são mãe e filho. A história é real e os nomes foram omitidos para a preservação da privacidade.

Nem sempre é assim, e casos como o de Maria e Marcelo não fazem parte das estatísticas oficiais de violência doméstica, que geralmente tabula e computa agressões e violência entre cônjuges e pais contra filhos. Uma quantidade enorme de pais apanha de seus filhos ao menor pretexto ou motivo.

Com medo de que a violência possa aumentar se os denunciarem, pais se calam e continuam apanhando e sendo agredidos impunemente. Afora a vergonha de ter de admitir para vizinhos, parentes e amigos que são agredidos fisicamente. O que leva um filho a se tornar agressor dos seus pais? Os motivos podem ser fúteis ou banais, e após a primeira vez que baterem, se não forem coibidos, baterão sempre e cada vez mais.

No caso de Marcelo, que sempre teve um relacionamento cordial com sua mãe, foi a recusa dela em pagar-lhe uma nova faculdade. Prodígio com números; Marcelo começou o estudar Matemática, parando no segundo ano, quando iniciou Biologia, que também abandonou no começo do quarto ano. Agora queria iniciar o curso de Economia, e diante da recusa da mãe em financiar-lhe a nova empreitada partiu para cima dela e se deu mal.

Longe de ser relapso ou um mau filho, sempre trabalhou para ajudar a mãe e o irmão, depois que o pai os abandonou atraído pelos encantos de uma mulher quinze anos mais nova que a mãe. Meses antes da discussão, Maria recebera uma grande soma em dinheiro proveniente de uma herança familiar e menos pelo dinheiro e sim pela indecisão de Marcelo, é que se recusava a financiar uma nova aventura escolar do filho.

Depois de muito discutirem e se estressarem mutuamente, Marcelo partiu para a agressão e teve o troco à altura.

Mas nem sempre é assim.

Tempos atrás escrevi o artigo Os caminhos da juventude, onde relato algumas práticas dos nossos jovens. Um dos assuntos abordados foi o RPG. Como sempre, cada vez que contrario alguém, recebi um caminhão de mensagens desaforadas e que revelam bem a quantas andam determinadas vidas. No entanto, um e-mail chamou a minha atenção porque a mãe que me escreveu vive um drama dentro de casa. Com a autorização dela publico o e-mail, sem contudo identificá-la por motivos óbvios.

“From:

Subject: Meu drama

Date: November 10, 2005 8:44:23 PM EST

To: contato@jehozadakpereira.com

Reply-To:

Nome: Antonia B.

E-mail:

Assunto: Desabafo

Telefone:

Mensagem: Jehozadak, meu nome é Antonia e moro numa capital do sul do país, e vivo um drama dentro de casa. Primeiro quero dizer que li sua matéria sobre o rpg, pois o Fabrício, meu filho de 18 anos estava lendo no computador e falava no telefone muito bravo contra voce. Ao ler o seu artigo pude me identificar com uma situação que vivencio dentro da minha casa há pelo menos 5 anos. O Fabrício, começou a jogar rpg aos 13 anos e desde então eu venho perdendo ele a cada dia. Meu marido é diretor de uma multinacional e não nos falta nada, e eu sou professora universitária. Desde que o Fabrício resolveu trocar as companhias do colégio por outras de outra turma ele ficou cada vez mais agressivo e outro dia chegou a me agredir fisicamente, depois de me xingar durante todos estes anos. O pai não pode com ele e também ele agride-o por causa do jogo e por causa de música que ele ouve numa altura incrível.

Desde que ele nos xinga, já estamos acostumados, mas no dia que ele agrediu o pai por causa dos amigos dele que jogam rpg, ele disse pro pai dele que se precisar matar e morrer por este jogo ele mata e morre. Minha cunhada é psicologa, e nos orientou a buscar ajuda de um terapeuta.

Quando falamos que iamos levá-lo numa terapeuta, ele ficou furioso e disse que não estava louco, e me agrediu com um fúria que jamais poderia imaginar. No hospital, eu disse que havia sido assaltada, pois me faltou coragem para dizer que tinha sido o meu próprio filho que tinha me agredido.

Quando meu irmão viu a situação que eu fiquei, reagiu contra ele, e disse que se ele me batesse de novo, ele iria conversar seriamente com o Fabrício. Só que ele reagiu contra o tio e disse que eu estava tentando afastá-lo do rpg, e que ele não iria tolerar isto, pois o jogo é a coisa mais importante da vida dele.

Sabe, Jehozadak, quando eu li sobre aqueles jovens que não tomam banho e tem hábitos pouco higiênicos, eu lembrei do Fabrício e dei risada, pois parece que você está falando do meu filho.

Criamos os nossos filhos com fortes valores morais, e mesmo não tendo religião, buscamos dar a eles noções de que existe algo superior, e que tão logo eles pudessem decidir pelo que quisessem seguir que o fizessem. Nossa filha mais velha se casou com um rabino e mora em Israel, e os outros não se decidiram no que querem crer.

A opção do Fabrício pelo misticismo não nos incomoda, o que incomoda é o modo com que ele nos trata, o seu fanatismo, e o profundo envolvimento dele com este jogo maldito que esta consumindo a vida dele.

Sinto-me profundamente abalada e humilhada por tudo isto que nos cerca, e tenho a certeza de que um dia terei meu filho de volta, pois hoje a cabeça, e vida e os ideiais dele estão totalmente voltados para demônios, violência, bruxos, feiticeitos, mestres, vampiros e sinceramente tenho medo de que um dia receba alguma noticia ruim envolvendo o Fabrício”.

Recebo às dezenas e-mails como o de Antonia B., falando que seus filhos são agressores contumazes, e que não sabem o que fazer. É complicado aconselhar alguns casos, pois sempre há um agravante na história toda que nunca é revelado. Anos atrás conheci uma mãe que apanhava da filha que na época tinha 14 anos. A mulher já havia se acostumado a apanhar e não reclamar, até o dia que apanhou da caçula que tinha 10 anos. Ela era espancada por motivos fúteis e filhas não estavam nem aí para ela. Uma vez ela levou um chute da filha mais velha no rosto que quebrou o seu maxilar. No hospital os médicos queriam saber o que havia acontecido, e ela não pode esconder a verdade.

O caso foi entregue a uma assistente social e as meninas passaram por uma longa terapia, até que se corrigissem definitivamente. Conversando comigo ela dizia que tardiamente havia descoberto os motivos das surras que levava das suas filhas – ela sentia que havia criado as filhas com desdém e pouco se importava com o bem estar delas.

Mas isto não justifica de modo algum as agressões fisícas e emocionais. Fatos como estes eram raros décadas passadas, mas o dito progresso, a frouxidão com que alguns pais criam seus filhos tornam algumas convivências insuportáveis.

Há ainda a negligência com que alguns filhos são criados, ou aqueles que maltrataram seus pais e agora são maltratados pelos seus filhos.

Alguns até com brutalidade chocante. Lembro de uma história que meus filhos contavam de um colega de classe que batia na mãe diariamente sem qualquer motivo, uma vez que a mãe não podia reagir às agressões.

Como agir em caso de agressão? Exponha o agressor diante das suas amizades, pois muitas vezes eles têm um comportamento diferente nos seus locais de convívio. Foi o que eu recomendei para uma mãe que que escreveu anos atrás. O filho batia nela e na irmã por qualquer motivo. Um dia numa festa ela foi agradada por ele diante de todos e algumas pessoas elogiaram o comportamento dele. Quando ela me perguntou o que fazer eu disse que ela deveria na próxima vez expô-lo publicamente. E foi exatamente o que ela fez.

Na festa de noivado dele, novamente ela foi agradada, e não perdeu a oportunidade. Diante de todos expôs o filho agressor, e contou o seu tormento durante os anos todos. Disse para a futura nora que o que a esperava eram agressões e maus tratos. Um choque para todas as pessoas. Não é preciso dizer que não houve noivado algum, e o filho ficou perplexo com a atitude da sua mãe.

Constrangido ele buscou ajuda e jamais tornou a agredir a mãe e a irmã. Três anos depois no dia do seu casamento, ele discursou e emocionou a todos ao dizer que amava ainda mais a sua mãe e que a atitude de coragem dela diante de todos salvara a vida dele, e que nunca mais ele agiria daquele modo insano e inconsequente.

E foi o que eu recomendei a Antonia B. Que ela e o marido reagissem contra o filho. E foi o que eles fizeram. Quando Fabrício começou a xingá-los, eles botaram ele para correr, quando ele partiu para cima deles. Um spray de pimenta e uma máquina de dar choques intimidaram o covarde. Não satisfeitos eles colocaram fogo no computador, nos livros, nos jogos, nas roupas, tênis e sapatos, além de chamar os parentes para denunciar o agressor, e telefonaram para os pais dos amigos do filho. Além de não deixá-lo entrar em casa por uma semana.

Desamparado pelos amigos jogadores de rpg, humilhado diante de todos e sem possibilidade de agir de outro modo, restou ao ex-valentão pedir perdão ao pai e mãe, e se consertar. O e-mail de Antonia B., é daquele para se guardar a vida toda, e Fabrício certamente aprendeu uma lição da qual jamais vai esquecer. Ela diz ainda que falou para o filho que jamais vai apanhar dele novamente, e que se ele ousar fazer isto ela vai jogar água fervendo na cara dele. É sem dúvida um bom modo de convencimento, e que certamente vai tirar qualquer ímpeto de fúria de Fabrício.

Eu não imaginava que ela fosse tão longe.

Copyright©2005 – todos os direitos reservados ao autor  – dezembro/2005

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