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Jehozadak Pereira

Escrevi esta série especial sobre inveja uns anos atrás e são sempre atuais pois o que não falta no mundo é gente invejosa. Para ler os textos clique nos respectivos títulos e novas janelas vão abrir com o texto

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Podemos descrever o nosso ódio, os nossos medos, as nossas vergonhas. Mas não a nossa inveja
Francesco Alberoni

A inveja tem sintomas? O que sente o invejoso? Tem dores? Vejamos o que nos diz Provérbios 14.30 – “O ânimo sereno é a vida do corpo, mas a inveja é a podridão dos ossos”. Ossos podres? Notemos o contraste entre o invejoso e o que não sente inveja alguma: o não invejoso tem o coração e a mente tranqüila, é sadio, é equilibrado, é satisfeito, enquanto isto o invejoso tem a mente e o coração deteriorado e corrompido, e a inveja lhe faz tanto mal que ele se sente apodrecendo, deteriorando, putrefato, e tudo beirando a insanidade.

A inveja significa um misto de desgosto e ódio provocado pela prosperidade e pelo bem ou felicidade dos outros. Para alguém fique desgostoso é preciso um motivo muitíssimo forte. Que tal a inveja? Se nos reportarmos ao caso de José e seus irmãos, vamos ver que a simples presença de José num ambiente comum a todos eles era motivo mais que suficiente para que houvesse a irritação e o desgosto deles.

Ossos podres. Para que um osso, que é o componente mais forte do corpo humano possa se corromper, é necessário que a pessoa morra e então os ossos se tornarão em pó. Mas ossos podres em vida? É possível isto? Sim, conforme nos atesta o texto lido em Provérbios 14.30. Tal como um poderoso ácido, a inveja torna os ossos podres. Isto nos remete a uma outra situação. Conversem com quem já quebrou alguma parte do corpo, ou mesmo fissurou algum osso. A dor é lancinante e insuportável. Até que se conserte a parte lesionada a dor permanecerá. Dizem também que muitas vezes, mesmo depois de “consertado” a fratura, a dor permanecerá por um tempo ainda.

A dor que o invejoso sente é subjetiva e ao mesmo tempo real. A sua dor se originará num caráter fraco e falho e se estenderá desde o seu fio de cabelo até a ponta do pé, a sua dor será cada vez maior, e contaminará tudo a sua volta. A convivência com ele será insuportável.

Alceu* era o diretor executivo da empresa da família, que havia sido fundada por seu avô quase sessenta anos atrás. Da empresa de móveis provinha o sustento de todos os familiares de Alceu. Embora seu avô, seu pai e seus tios não tivessem curso superior, fizeram com que os seus filhos cursassem faculdades e universidades. No total eram quinze primos que sempre conviveram harmoniosamente e em relativa paz, excluindo-se ai as rusgas de infância e juventude.

Um dos primos que dividia com ele as tarefas na empresa era Fabrício. Eles eram os melhores amigos um do outro e tinham a mesma idade. Gostavam de jogar futebol, de velejar e coincidentemente casaram com duas irmãs gêmeas. Na época da faculdade fizeram o mesmo curso e especialização.

Após se graduarem, Alceu foi morar na Europa por dois anos, aproveitando uma bolsa de estudos que havia ganhado na faculdade, num trabalho que fizera em conjunto com Fabrício. Em paralelo ao curso de pós-graduação, fez também estágios em algumas empresas fabricantes de móveis na Alemanha e Inglaterra.

A viagem, o estágio e a permanência na Europa haviam feito bem a Alceu. Todos lhe sorriam, inclusive Fabrício. Dias depois de retornar ao seu posto na indústria o primo veio lhe dar as boas vindas.

Ao voltar para o Brasil, trouxe na bagagem além do diploma, um polpudo contrato de representação de móveis de uma das mais tradicionais indústrias da Europa. Igualmente para a admiração de todos apresentou um pedido de alguns milhões de dólares que havia conseguido de lojas da Espanha, França e Bélgica.

Depois de entregar parte da encomenda de móveis, tiraram uns dias de férias juntos com suas esposas e filhos. Tudo ia bem, muito bem.

Um ano depois uma notícia caiu como uma bomba causando comoção em todos – Alceu havia sido assaltado e morto com um tiro ao chegar em casa depois de um dia de trabalho.

O tiro fatal havia lhe acertado o ouvido e ele morreu na hora. Nada havia sido roubado. A rua onde Alceu morava era deserta e com pouca iluminação, ninguém vira nada. Mistério total.

O delegado encarregado de investigar o caso disse sem nenhum medo que o assassinato de Alceu havia sido por vingança. A dedução dele é que ninguém atira na cabeça de alguém para roubar. E uma das observações do delegado foi a de que o tiro havia sido dado com o carro em movimento e com o vidro fechado.

Por que ele havia chegado a esta conclusão? Porque ao tomar o tiro e cair sobre o volante, o carro batera no muro a sua direita, e o vidro da janela que recebera o tiro caíra todo dentro do carro.

Logo, na sua conclusão ninguém atira em alguém com o carro em movimento para roubar, e vai embora sem roubar nada, já que o lugar do crime estava deserto naquela hora da noite.

O crime precisava ser esclarecido e do gabinete do governador veio a ordem de que o assassino fosse descoberto a qualquer custo – o governador era casado com uma prima de Alceu e exigiu empenho nas investigações. A tarefa do delegado estava se mostrando difícil, pois Alceu não tinha inimigos. O delegado ouviu todos os que trabalhavam na indústria. Ouviu ex-empregados, ouviu parentes, e os primos que trabalhavam juntos na empresa.

Três meses depois da morte de Alceu, sua mulher foi procurada de novo pelo delegado que quis saber se entre os primos havia ocorrido algum incidente que pudesse ser a causa do assassinato. Nada. Ela não se lembrava de nada. O delegado insistiu e ela de novo respondeu negativamente. Ao sair o delegado disse que se ela se lembrasse de alguma coisa por mais insignificante que fosse que o comunicasse.

Naquela noite ela não dormiu. De repente ela se lembrou de algo que lhe deu calafrios. Havia descoberto o motivo do crime. Ao terminarem a faculdade Alceu e Fabrício haviam feitos juntos o trabalho de conclusão do curso, trabalho que havia dado a Alceu a bolsa de estudos na Europa.

Para os trabalhos que fossem feitos em conjunto ou em grupo, um sorteio determinaria quem seria o sorteado que teria direito à bolsa de estudos, esta era a regra pré-estabelecida. Em outros cursos da faculdade a mesma atitude havia sido tomada.

Na ocasião Fabrício abateu-se e levou meses para se recuperar. Depois daquilo nunca mais foi o mesmo. Deixou de lado o sorriso fácil e sincero para se transformar num homem triste e por vezes amargurado. Muitas vezes deixou de ir trabalhar por ter bebido na véspera e outras vezes deixava o trabalho no meio do dia para ir beber. Esta crise durou quase todo o período em que Alceu estivera fora, e quando esse voltou encontrou Fabrício aparentemente recuperado.

O convívio deles neste período de um ano desde a volta até a morte de Alceu fora de muito trabalho e sem nenhum incidente grave. A exceção foi a festa de aniversário de um dos filhos de Alceu que Fabrício deixou de ir.

Ao convocar Fabrício para depor novamente o delegado fez-lhe as mesmas perguntas da primeira vez, e acrescentou novas questões, desta feita acerca do sorteio e da sua reação à época. Fabrício gaguejou e perguntou se estava detido, e se podia ter a presença de seus advogados.

Finalmente o assassino havia sido descoberto.

Ele havia mandado matar o primo por causa da inveja e de ciúmes. Sentira-se ultrajado e diminuído na ocasião do sorteio. Era ele quem deveria ter ido. Era ele quem deveria ter sido contemplado. Mas não, fora Alceu, e isto ele não podia perdoar. Durante meses ele tramou a morte de Alceu. Decidiu que iria mandar matá-lo, quando voltasse. Não iria perdoar. Faria a coisa perfeita, faria a coisa de modo a não ser incriminado. Planejou cada detalhe, e durante meses buscou quem pudesse executar o crime. Um ex-policial militar foi contratado e matou Alceu. Vinte dias depois do crime o assassino foi morto numa emboscada por justiceiros. Fabrício pensou que estaria impune definitivamente.

Friamente ele contou ao delegado a história, e como durante todo o tempo alimentou ódio e rancor contra seu primo, narrou como havia dias em que não conseguia se levantar para trabalhar. Mas quando pensava na vingança e de como mataria Alceu, animava-se novamente. Disse uma frase que demonstrou toda a sua frieza – que muitas vezes sentia os seus ossos como que ardendo, queimando, e seu único pensamento quando isto acontecia era o de que o seu “desafeto” morreria.

Deu detalhes de como premeditou a morte de Alceu, e para surpresa do delegado, do escrivão e dos advogados afirmou que faria tudo novamente. Disse ainda que se pudesse matar Alceu dez vezes o faria.

O delegado em mais de vinte anos de profissão jamais vira um caso tão chocante quanto este. Fabrício, mesmo depois de ter mandado matar o seu parente ainda destilava ódio e rancor. O seu olhar era frio e impiedoso. O avô de ambos precisou ser internado com um princípio de enfarte, e a família precisou de anos para se recuperar do ocorrido.

Fabrício foi condenado a vinte anos de prisão e tempos depois, foi morto a golpes de estilete na cadeia onde cumpria pena durante uma rebelião.

Quantos casos semelhantes ao de Alceu e Fabrício se repetiram ao longo da história? Quantos alimentam ódio e rancor mortal por causa da inveja?

O invejoso quer ser o outro, quer ter as coisas do outro, quer possuir o que por direito não lhe pertence, o próximo passo seguinte a inveja é o ressentimento. O ressentimento vai envenenar a alma do indivíduo, de modo que se ele não dominar os seus impulsos, passará a ter desejos de vingança, pois se sentirá ultrajado e infamado na sua personalidade.

O invejoso não se forma de uma hora para outra. Ele vai desenvolvendo a peçonha da inveja ao longo dos anos. A inveja pode estar adormecida no seu interior. O invejoso pode ver qualquer um como seu inimigo pessoal. Pode ser o vizinho que acabou de comprar um carro novo, pode ser o colega de trabalho que recebeu uma promoção, pode ser o amigo que recebeu um elogio, que ele julga ser merecedor. Por vezes o invejoso está tão preocupado com o outro, que ele julga seu oponente que acaba desperdiçando oportunidades, que poderiam fazê-lo crescer e realizar as suas ambições.

O invejoso sempre vai achar que o culpado pelo seu fracasso pessoal é o sucesso alheio.

O invejoso é carente, dependente e invariavelmente deixa de lado a personalidade tímida para assumir uma máscara de arrogância e prepotência que não vai deixá-lo sair do buraco em que se encontra.

A inveja é um sentimento singular. Na inveja não há pluralidade. O invejoso é furtivo, e nunca vai partilhar o seu (mau) sentimento com ninguém. A inveja é considerada “um mal secreto”. A inveja é uma velha dama indigna, de má reputação e péssimo caráter, sorrateira, capaz de com um simples olhar, murchar plantas e secar pimenteiras.

São Tomás de Aquino abordou a inveja – “tristina de alienis bonnis” – ou seja, ela tem em sua composição a tristeza em relação às coisas boas dos outros. Esse sentimento a contemplação da felicidade alheia destaca. É um sentimento que não mostra a cara, porém destila veneno, fala com maldade disfarça, escamoteia e é traiçoeira.

Não há inveja “boa”. Todo sentimento de inveja é mau e pernicioso. O dicionário Aurélio define a inveja como um desgosto ou pesar pelo bem alheio; desejo de possuir o que o outro tem. O invejoso constantemente se pergunta por que o mundo foi tão “injusto” com ele? Afinal quem merecia as “coisas”, dons, características que o outro possui é ele.

Freqüentemente o invejoso pensa que o outro achou a verdadeira fórmula e receita de felicidade, e que ambas deveriam ser passadas para ele também.

O invejoso chega a conclusão que lhe falta algo. Que há um “vazio” na sua vida, há um buraco que deve ser preenchido com algo.

Este algo é o que o outro tem. É o que o invejoso vai perseguir. Este é o sintoma que ele sente, e que só vai ser suprido se ele se curvar aos pés do Senhor.

* Os nomes são fictícios, baseados em fato real.


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